Chovia naquele dia. As minhas dores de artrite pioravam e tinham-me levado àquele sítio em busca de respostas. Das últimas vezes que lá fui, foi na aflição de uma amiga. Falso alarme e ela saiu de lá sem uma tonelada. Era a minha vez mas eu estava só. E se não fosse falso alarme?
Entro novamente no consultório do médico e no meu habitual humor negro pergunto como quem já sabe a resposta mas sem a esperar realmente: "Vou morrer e não sei?"..
Quando dei por mim, tinha o médico à minha frente a rir nervosamente e a dizer: "é tão redondo que me parece algo benigno, honestamente parece... mas vamos fazer mais exames".
A minha cabeça processou rapidamente a informação e naquele momento chorei. Chorei pela falta de saúde, de sorte, pelos meus filhos tão pequenos.. por tudo e por nada. E assim de repente tinha um alvo nas minhas costas e eu sem saber o que fazer... Saí depois de uma conversa que não lembro mais. Possivelmente uma daquelas que se tem quando se quer acalmar as pessoas. O guarda chuva ficou fechado e caminhei pela rua à chuva que nem senti, sem saber o que pensar, por onde começar... "Exames. Preciso fazer exames o quanto antes. Pode ser benigno mas também pode ser maligno e tenho de ser rápida.." Duas semanas passaram entre exames e resultados. Entre socos no estômago e ataques de ansiedade. Entre lágrimas e raiva. E assim descobri: 7 de Março de 2024, cancro nos pulmões, um tumor rápido e agressivo, maligno. Foi este o dia em que a minha vida mudou para todo o sempre.
A vida sempre tem um lado engraçado de nos fazer voltar atrás quando pensamos que demos muitos passos em frente. Agarrada à minha mãe, 40 anos depois da última vez, dizia-lhe algo que já nem me lembrava de dizer: "Tenho medo mamã".
Muitos podem pensar que minha mãe foi fria mas não podia ter dado o melhor conselho: "Minha filha não tenhas medo. Tens de pensar que um dia podias vir aqui a casa e ao sair seres atropelada e morrer... e depois? Terminava tudo ali... sem nada organizado, planeado... o bom que estas coisas têm é que corram bem ou mal, te dão tempo de preparares tudo e organizares a vida"... Que ninguém me pergunte mas esse foi o dia em que limpei as lágrimas e lhe prometi que ia lutar. Foi o dia em que aceitei que ninguém tem um prazo de validade escrito na testa. Foi o dia em que percebi que se mais pessoas pensassem na morte, teriam uma vida mais organizada e quem sabe, feliz.
Cheguei a tempo. Não havia metástases nem sintomas. Tive sorte. Uma semana depois do ultimo resultado, estava sentada num cadeirão de hospital, ligada por uma veia, a algo que me iria tentar salvar a vida. Iria levar tudo pelo caminho, o cabelo, a energia, o sistema imunitário mas isso são "ossos do ofício", males menores numa tentativa de me salvar, desde que me levasse também esse tumor que não quero. Segui forte na minha luta. Mais uma semana depois, estava deitada numa maca a fazer radioterapia também... E aqui, apenas aqui, outro fantasma da minha infância... a radioterapia que devido ao seu poder, anos antes de eu ter idade para me lembrar da voz dele, contribuiu para a morte do meu avô anos mais tarde. E novamente na minha cabeça, aquela voz apaziguadora que não percebo de onde vem: "foi há muito tempo. Na altura não se sabia bem como funcionar com a radioterapia...".
Os dias passaram. A cabeça ganhou nova vida e pensamentos. Que maneira melhor de perceber tudo isto do que sendo um doente também? O mundo ganhou novas cores, contornos, a luta transforma-se em algo diário e "mais um dia" tem sabor a vitória. Longe do pensamento que tinha antes de uma sala de quimioterapia como um sítio escuro, com pessoas moribundas e carecas a lutar por mais um dia, encontrei força e risos numa sala alegre cheia de caras rosadas. Ali estamos todos no mesmo barco e as histórias de vida e luta eram todas maravilhosas. Desde o senhor que já lá ia há 10 anos, à senhora que já combateu dois ou três cancros diferentes e estava ali para contar a história... Havia de tudo e só a muito custo percebemos que quem ali está, está tal como eu a lutar pelo mesmo objetivo. Sobreviver. Ninguém diria que entre estas 4 paredes, estamos a lutar pela vida.
Passados dois anos sobre isto, o cabelo voltou, o tumor queimou e mantém-se quieto mas a vida não voltou e dificilmente voltará, a ser o que era. O pensar no cancro 24 sobre 24 horas, o medo que volte, o medo de deixar os meus filhos sem mãe, a ansiedade antes de cada exame de rotina e o alívio que dura apenas uma semana depois das palavras da médica: "está tudo bem"... A vida ganhou novos sentidos e significados, os planos a longo prazo ficaram para curto/médio e o meu sistema imunitário faz as minhas hormonas saltarem entre estados de euforia e depressão um atrás do outro quando menos espero. As relações com os outros tornaram-se um 8 e 80. Ou estão perto e os amo, ou se afastam para morrerem para sempre em mim. Não há o normal "mais tarde, outro dia, depois" mas sim o "agora"! Não calo mais, não adio, não espero.
Ao mesmo tempo, sinto que este é o preço a pagar por anos a viver nas calmas, ou até pelo bónus de estar viva e pertencer aos 4% que ao fim de dois anos com este cancro, estão vivos. Por isso, estou grata. E que assim continue por muitos e bons anos e tal como diz a minha oncologista, "vamos equipa"!






