quarta-feira, 15 de abril de 2026

O início

"Quando foi a última vez que fez um raio-x aos pulmões?"- A pergunta soou sem grande alarme e esforcei para me lembrar quando teria sido o último exame... 3? 5 anos? Os anos passam à velocidade da luz sem que eu lhes tome as rédeas pelo que respondi apenas: "Faz algum tempo...". "Espere um pouco por favor", pediram- me.

Chovia naquele dia. As minhas dores de artrite pioravam e tinham-me levado àquele sítio em busca de respostas. Das últimas vezes que lá fui, foi na aflição de uma amiga. Falso alarme e ela saiu de lá sem uma tonelada. Era a minha vez mas eu estava só. E se não fosse falso alarme?

Entro novamente no consultório do médico e no meu habitual humor negro pergunto como quem já sabe a resposta mas sem a esperar realmente: "Vou morrer e não sei?"..

Quando dei por mim, tinha o médico à minha frente a rir nervosamente e a dizer: "é tão redondo que me parece algo benigno, honestamente parece... mas vamos fazer mais exames".

A minha cabeça processou rapidamente a informação e naquele momento chorei. Chorei pela falta de saúde, de sorte, pelos meus filhos tão pequenos.. por tudo e por nada. E assim de repente tinha um alvo nas minhas costas e eu sem saber o que fazer... Saí depois de uma conversa que não lembro mais. Possivelmente uma daquelas que se tem quando se quer acalmar as pessoas. O guarda chuva ficou fechado e caminhei pela rua à chuva que nem senti, sem saber o que pensar, por onde começar... "Exames. Preciso fazer exames o quanto antes. Pode ser benigno mas também pode ser maligno e tenho de ser rápida.." Duas semanas passaram entre exames e resultados. Entre socos no estômago e ataques de ansiedade. Entre lágrimas e raiva. E assim descobri: 7 de Março de 2024, cancro nos pulmões, um tumor rápido e agressivo, maligno. Foi este o dia em que a minha vida mudou para todo o sempre.

A vida sempre tem um lado engraçado de nos fazer voltar atrás quando pensamos que demos muitos passos em frente. Agarrada à minha mãe, 40 anos depois da última vez, dizia-lhe algo que já nem me lembrava de dizer: "Tenho medo mamã".

Muitos podem pensar que minha mãe foi fria mas não podia ter dado o melhor conselho: "Minha filha não tenhas medo. Tens de pensar que um dia podias vir aqui a casa e ao sair seres atropelada e morrer... e depois? Terminava tudo ali... sem nada organizado, planeado... o bom que estas coisas têm é que corram bem ou mal, te dão tempo de preparares tudo e organizares a vida"... Que ninguém me pergunte mas esse foi o dia em que limpei as lágrimas e lhe prometi que ia lutar. Foi o dia em que aceitei que ninguém tem um prazo de validade escrito na testa. Foi o dia em que percebi que se mais pessoas pensassem na morte, teriam uma vida mais organizada e quem sabe, feliz.

Cheguei a tempo. Não havia metástases nem sintomas. Tive sorte. Uma semana depois do ultimo resultado, estava sentada num cadeirão de hospital, ligada por uma veia, a algo que me iria tentar salvar a vida. Iria levar tudo pelo caminho, o cabelo, a energia, o sistema imunitário mas isso são "ossos do ofício", males menores numa tentativa de me salvar, desde que me levasse também esse tumor que não quero. Segui forte na minha luta. Mais uma semana depois, estava deitada numa maca a fazer radioterapia também... E aqui, apenas aqui, outro fantasma da minha infância... a radioterapia que devido ao seu poder, anos antes de eu ter idade para me lembrar da voz dele, contribuiu para a morte do meu avô anos mais tarde. E novamente na minha cabeça, aquela voz apaziguadora que não percebo de onde vem: "foi há muito tempo. Na altura não se sabia bem como funcionar com a radioterapia...".

Os dias passaram. A cabeça ganhou nova vida e pensamentos. Que maneira melhor de perceber tudo isto do que sendo um doente também? O mundo ganhou novas cores, contornos, a luta transforma-se em algo diário e "mais um dia" tem sabor a vitória. Longe do pensamento que tinha antes de uma sala de quimioterapia como um sítio escuro, com pessoas moribundas e carecas a lutar por mais um dia, encontrei força e risos numa sala alegre cheia de caras rosadas. Ali estamos todos no mesmo barco e as histórias de vida e luta eram todas maravilhosas. Desde o senhor que já lá ia há 10 anos, à senhora que já combateu dois ou três cancros diferentes e estava ali para contar a história... Havia de tudo e só a muito custo percebemos que quem ali está, está tal como eu a lutar pelo mesmo objetivo. Sobreviver. Ninguém diria que entre estas 4 paredes, estamos a lutar pela vida. 

Passados dois anos sobre isto, o cabelo voltou, o tumor queimou e mantém-se quieto mas a vida não voltou e dificilmente voltará, a ser o que era. O pensar no cancro 24 sobre 24 horas, o medo que volte, o medo de deixar os meus filhos sem mãe, a ansiedade antes de cada exame de rotina e o alívio que dura apenas uma semana depois das palavras da médica: "está tudo bem"... A vida ganhou novos sentidos e significados, os planos a longo prazo ficaram para curto/médio e o meu sistema imunitário faz as minhas hormonas saltarem entre estados de euforia e depressão um atrás do outro quando menos espero. As relações com os outros tornaram-se um 8 e 80. Ou estão perto e os amo, ou se afastam para morrerem para sempre em mim. Não há o normal "mais tarde, outro dia, depois" mas sim o "agora"! Não calo mais, não adio, não espero.

Ao mesmo tempo, sinto que este é o preço a pagar por anos a viver nas calmas, ou até pelo bónus de estar viva e pertencer aos 4% que ao fim de dois anos com este cancro, estão vivos. Por isso, estou grata. E que assim continue por muitos e bons anos e tal como diz a minha oncologista, "vamos equipa"!



segunda-feira, 13 de abril de 2026

True Colors

Hoje. Mais do que nunca, lembro o meu irmão. Partido no tempo que ele sempre esticou até ao infinito, num mundo que ele escolheu, perdido cedo demais. Penso hoje, como pensei ontem e pensarei amanhã e todo o sempre mas há momentos em que ele é mais "visível" em mim do que outros. Hoje foi um dia desses. E mais uma vez o luto. O que por uma razão ou outra acabo por adiar fazer. Como que se ao fazê-lo, me fizesse esquecer dele. Eu sei que ajudaria mas o medo continua maior. Não quero esquecer, não quero esquecer-me dele em momentos como o hoje nem muito menos o quero "afastar" de mim por aceitar a sua morte depois de fazer o luto. Eu sei que isto não tem lógica mas será assim tão ilógico?

Começou com uma simples conversa. Dois amigos que o tempo separa e une. Dois adolescentes num corpo que envelheceu com o passar dos anos como seria de esperar. Temos agora rugas e cabelos brancos mas de alguma forma somos bem mais bonitos do que alguma vez fomos. Falamos do passado, do presente, dos entretantos da vida. Vidas que foram bonitas, tristes e alegres, feias por vezes mas que nos trouxeram ao agora e que a mim me fizeram lembrar o meu irmão.

Os irmãos mais velhos, aqueles que servem de guia para a vida dos mais novos, os que nos ensinam o que fazer, como, quando e acima de tudo o que não fazer. Os que nos dão todo esse ensinamento que os mais novos se esforçam por não dar valor mas que faz agora um sentido único, trazendo toda uma beleza desconhecida. O meu, perdi a conta a namoradas, amizades coloridas, e amigos. Amigos genuínos. Aquele que se contava pelos dedos as namoradas que não viraram amigas a seguir porque embora mulherengo, sempre foi fiel e quando amava, fazia-o intensamente (magoando-se muitas vezes e levantando logo a seguir com a mesma intensidade), quando o amor se acabava, o seu coração continuava a emanar amor mas como amigo e por isso, nunca se afastou. Sempre ensinando-me que isso é possível embora nem sempre seja fácil para os outros, entender. 

Confesso, tentei fazer o mesmo. Contam-se pelos dedos os ex-namorados com quem não fale ou cumprimente se passar na rua, porque o amor carnal acabou mas aquilo que me levou inicialmente a gostar dessas pessoas, não morreu, faz parte de cada um de nós e do nosso ser. Se estou com eles muitas vezes? Não. Porque as vidas mudaram, as prioridades também, o trabalho exigente, a vida familiar, os desencontros... e muitas vezes, por não querer de alguma forma ser a causa de insegurança de um relacionamento.

Eu que sempre falei pelos cotovelos mas quando era para falar de mim, sempre com muitos floreados talvez com a vergonha do peso das palavras. Assim o era para não me sentir despida. Uma coisa sempre foi despir-me de roupas e ser transparente, outra bem diferente, é sentir-me nua de pele. E muitas vezes acabava por não conseguir dizer o que realmente queria.

Mas hoje percebi que na vida, perde-se muito quando se cala o que se devia falar, sem medo, sem receio do impacto em terceiros. Lembrei-me que a vida não é feita de terceiros mas de primeiros e que as relações, sejam amorosas ou de amizade, se baseiam na mesma coisa: confiança. Um porto seguro que nos vai abraçar ou esbofetear, dar a mão ou um pontapé quando merecemos... E que dizer o que nos vai na alma, só vai fazer sentido para essa pessoa e mais ninguém tem de entender, apenas confiar em quem eles decidem ter como primeiros.

E assim hoje, percebi que interiorizei o que me foi ensinado e pela primeira vez lhe dei uso. Perceber que o amor de agora é muito mais bonito e forte na amizade do que alguma vez foi no namoro. Percebi que amar alguém, pode ser muito mais do que amor carnal e ter várias formas e cores. Por isso mesmo, lembrei-me do meu irmão e sem vergonha nenhuma, falei o que calei até então. Eu amo este amigo. E sim, isso é possível mesmo sendo "casada" e mãe de filhos, porque o meu marido é o primeiríssimo e porque confia. E como confia, eu não escondo. Parece lógico mas infelizmente raro. Porque a sociedade nos ensina que homem e mulher não podem ser só amigos, e porque muitas vezes os terceiros, se esquecem que antes do namoro que têm, já existiam os amigos de cada um e o carinho que havia, não pode nem vai ser apagado ou menos carinhoso, só porque eles querem. Negar isso, só vai criar uma bomba de autodestruição para a relação ou para elas mesmas.

E por isso, obrigada mano. E um muito obrigada a esse amigo por me amparar na dor e na felicidade. Porque às vezes, raras nos tempos que correm, os nossos amigos são os melhores psicólogos e a nossa tábua de sanidade e salvação.