quarta-feira, 31 de março de 2010
Quanto custa um café?
Estas palavras são mudas. Ninguém as sabe para além de mim. Ninguém as ouve porque não as conto. São escritas por mim, a ninguém. São extractos de conversas sem existência real, contadas por ti como se fossem vividas por qualquer um de nós.
Tu contas, eu ouço e não as conto. Pedes-me segredo sobre algo que nem existe e eu encho mais um pouco. Perco-me na dúvida de guardar segredo da própria mentira, ou na possibilidade da sua revelação.... E é isto que me dás em troca de um café. Uma mentira que me faz questionar a veracidade de outros cafés... uns fracos, outros fortes... qual deles foi o tal? O que se entornou numa mesa, manchando a confiança?
E eu continuo a ir ao mesmo sítio de sempre... arrastada pela ressaca da cafeína, na esperança que tudo não passe de um sonho mau. "Eu vou acordar"... "Agora?"... "talvez... AGORA?"...
Nada mais me segura aqui. Tudo morre naquele café quando me matas aos bocadinhos... nada sobra... resta saber a quem vais contar a tua mentira agora?
terça-feira, 30 de março de 2010
Connections
Nunca sei se quando falo contigo, será de facto, a última vez. Assim... o dia em que nos fartamos um do outro e simplesmente desligamos... primeiro as conversas, as palavras, depois, a boca, por fim o pensamento.
Nunca sei quando estou a mais, da mesma forma que nunca sei quando estou a menos... Tu não falas, eu não pergunto e o que nos une, é uma linha ténue de acontecimentos quotidianos... circunstanciais, breves, frágeis...
Talvez se a realidade fosse diferente, nos déssemos mais e melhor, talvez se o tempo fosse outro, se a vida por vezes não custasse tanto a passar, ou se pesasse menos... Não saberemos responder aos "talvez", assim como não o sabemos fazer com os pensamentos que nos assolam a cabeça, mas que não revelamos, seja qual for o motivo... o teu, porque o meu, sei-o bem... Sei que tentaste perceber e eu nada pude explicar... Estou de pés e mãos atadas, a depender dos breves momentos de contacto, até que provavelmente, um se lembre de esquecer o outro...
Oh valha-me... alguém!
E pronto... o Artur ainda mal chegou e já nos brindou com uma das suas muitas piadas...
ARTUR: ... é pah não sei, é nesta zona (indicando para as nádegas)... estes músculos..
EU: Ahhhh, são os glúteos...
ARTUR: Não! É o músculo perónio superior traseiro ou lá como se diz...
EU: Ah???
ARTUR: Tens razão, não se chama assim... é o tendão do fémur!!
Oh valha-me Deus... O.O
segunda-feira, 29 de março de 2010
Avenida dos "alienados"
O metro vai cheio a esta hora. Cheio de gente, cheio de sacos e malas que entopem o caminho, cheio de sujidade dos que fazem do chão, caixote de lixo, cheio de pessoas que não interessam a ninguém, que cedem lugares aos idosos só porque outros olhares os recriminam...Alheia a isto, foco a minha atenção na música que grita aos meus ouvidos, pede clemência e novas vistas. Não! Nada me vai deprimir. Não mais do que já é costume. Podem soltar os cães, berrarem, espernearem, baterem, nada é mais forte que o meu desejo de me abstrair desta realidade. Caminho finalmente, pelas ruas tantas vezes massacradas pelos meus pés... e pelos demais... umas vezes a correr, outras a andar, a saltar ou simplesmente parada a contemplar a beleza (agora menor), deste sítio.A um canto, sentam-se as espanholas que de malas aviadas, estão de partida, não sem antes dar uma lição de boa educação ao empregado de café, mostrando-lhe que ser simpático não dói nada e é à borla. E ele finge. Todo ele é fingimento. Finge que gosta do que faz, finge que é simpático e por fim, finge o sorriso... tudo nele soa a falso, cheira mal e transforma-o numa má pessoa.
Ao lado das espanholas, passam as mães adolescentes que engravidaram na primeira vez que acreditaram num conto de fadas do arco da velha... não tiveram coragem de abortar e hoje, são as mesmas adolescentes revoltadas num corpo deformado, arrastando as crianças pela mão, enquanto lhes berram por não quererem um chupa-chupa... E eu na mesma... não há nada... nada que me deprima mais do que a triste realidade.. música.. preciso de música para evitar ouvir o que dizem num português rasca e estranho de quem nem a quarta classe parece ter.
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