quarta-feira, 15 de abril de 2026

O início

"Quando foi a última vez que fez um raio-x aos pulmões?"- A pergunta soou sem grande alarme e esforcei para me lembrar quando teria sido o último exame... 3? 5 anos? Os anos passam à velocidade da luz sem que eu lhes tome as rédeas pelo que respondi apenas: "Faz algum tempo...". "Espere um pouco por favor", pediram- me.

Chovia naquele dia. As minhas dores de artrite pioravam e tinham-me levado àquele sítio em busca de respostas. Das últimas vezes que lá fui, foi na aflição de uma amiga. Falso alarme e ela saiu de lá sem uma tonelada. Era a minha vez mas eu estava só. E se não fosse falso alarme?

Entro novamente no consultório do médico e no meu habitual humor negro pergunto como quem já sabe a resposta mas sem a esperar realmente: "Vou morrer e não sei?"..

Quando dei por mim, tinha o médico à minha frente a rir nervosamente e a dizer: "é tão redondo que me parece algo benigno, honestamente parece... mas vamos fazer mais exames".

A minha cabeça processou rapidamente a informação e naquele momento chorei. Chorei pela falta de saúde, de sorte, pelos meus filhos tão pequenos.. por tudo e por nada. E assim de repente tinha um alvo nas minhas costas e eu sem saber o que fazer... Saí depois de uma conversa que não lembro mais. Possivelmente uma daquelas que se tem quando se quer acalmar as pessoas. O guarda chuva ficou fechado e caminhei pela rua à chuva que nem senti, sem saber o que pensar, por onde começar... "Exames. Preciso fazer exames o quanto antes. Pode ser benigno mas também pode ser maligno e tenho de ser rápida.." Duas semanas passaram entre exames e resultados. Entre socos no estômago e ataques de ansiedade. Entre lágrimas e raiva. E assim descobri: 7 de Março de 2024, cancro nos pulmões, um tumor rápido e agressivo, maligno. Foi este o dia em que a minha vida mudou para todo o sempre.

A vida sempre tem um lado engraçado de nos fazer voltar atrás quando pensamos que demos muitos passos em frente. Agarrada à minha mãe, 40 anos depois da última vez, dizia-lhe algo que já nem me lembrava de dizer: "Tenho medo mamã".

Muitos podem pensar que minha mãe foi fria mas não podia ter dado o melhor conselho: "Minha filha não tenhas medo. Tens de pensar que um dia podias vir aqui a casa e ao sair seres atropelada e morrer... e depois? Terminava tudo ali... sem nada organizado, planeado... o bom que estas coisas têm é que corram bem ou mal, te dão tempo de preparares tudo e organizares a vida"... Que ninguém me pergunte mas esse foi o dia em que limpei as lágrimas e lhe prometi que ia lutar. Foi o dia em que aceitei que ninguém tem um prazo de validade escrito na testa. Foi o dia em que percebi que se mais pessoas pensassem na morte, teriam uma vida mais organizada e quem sabe, feliz.

Cheguei a tempo. Não havia metástases nem sintomas. Tive sorte. Uma semana depois do ultimo resultado, estava sentada num cadeirão de hospital, ligada por uma veia, a algo que me iria tentar salvar a vida. Iria levar tudo pelo caminho, o cabelo, a energia, o sistema imunitário mas isso são "ossos do ofício", males menores numa tentativa de me salvar, desde que me levasse também esse tumor que não quero. Segui forte na minha luta. Mais uma semana depois, estava deitada numa maca a fazer radioterapia também... E aqui, apenas aqui, outro fantasma da minha infância... a radioterapia que devido ao seu poder, anos antes de eu ter idade para me lembrar da voz dele, contribuiu para a morte do meu avô anos mais tarde. E novamente na minha cabeça, aquela voz apaziguadora que não percebo de onde vem: "foi há muito tempo. Na altura não se sabia bem como funcionar com a radioterapia...".

Os dias passaram. A cabeça ganhou nova vida e pensamentos. Que maneira melhor de perceber tudo isto do que sendo um doente também? O mundo ganhou novas cores, contornos, a luta transforma-se em algo diário e "mais um dia" tem sabor a vitória. Longe do pensamento que tinha antes de uma sala de quimioterapia como um sítio escuro, com pessoas moribundas e carecas a lutar por mais um dia, encontrei força e risos numa sala alegre cheia de caras rosadas. Ali estamos todos no mesmo barco e as histórias de vida e luta eram todas maravilhosas. Desde o senhor que já lá ia há 10 anos, à senhora que já combateu dois ou três cancros diferentes e estava ali para contar a história... Havia de tudo e só a muito custo percebemos que quem ali está, está tal como eu a lutar pelo mesmo objetivo. Sobreviver. Ninguém diria que entre estas 4 paredes, estamos a lutar pela vida. 

Passados dois anos sobre isto, o cabelo voltou, o tumor queimou e mantém-se quieto mas a vida não voltou e dificilmente voltará, a ser o que era. O pensar no cancro 24 sobre 24 horas, o medo que volte, o medo de deixar os meus filhos sem mãe, a ansiedade antes de cada exame de rotina e o alívio que dura apenas uma semana depois das palavras da médica: "está tudo bem"... A vida ganhou novos sentidos e significados, os planos a longo prazo ficaram para curto/médio e o meu sistema imunitário faz as minhas hormonas saltarem entre estados de euforia e depressão um atrás do outro quando menos espero. As relações com os outros tornaram-se um 8 e 80. Ou estão perto e os amo, ou se afastam para morrerem para sempre em mim. Não há o normal "mais tarde, outro dia, depois" mas sim o "agora"! Não calo mais, não adio, não espero.

Ao mesmo tempo, sinto que este é o preço a pagar por anos a viver nas calmas, ou até pelo bónus de estar viva e pertencer aos 4% que ao fim de dois anos com este cancro, estão vivos. Por isso, estou grata. E que assim continue por muitos e bons anos e tal como diz a minha oncologista, "vamos equipa"!



segunda-feira, 13 de abril de 2026

True Colors

Hoje. Mais do que nunca, lembro o meu irmão. Partido no tempo que ele sempre esticou até ao infinito, num mundo que ele escolheu, perdido cedo demais. Penso hoje, como pensei ontem e pensarei amanhã e todo o sempre mas há momentos em que ele é mais "visível" em mim do que outros. Hoje foi um dia desses. E mais uma vez o luto. O que por uma razão ou outra acabo por adiar fazer. Como que se ao fazê-lo, me fizesse esquecer dele. Eu sei que ajudaria mas o medo continua maior. Não quero esquecer, não quero esquecer-me dele em momentos como o hoje nem muito menos o quero "afastar" de mim por aceitar a sua morte depois de fazer o luto. Eu sei que isto não tem lógica mas será assim tão ilógico?

Começou com uma simples conversa. Dois amigos que o tempo separa e une. Dois adolescentes num corpo que envelheceu com o passar dos anos como seria de esperar. Temos agora rugas e cabelos brancos mas de alguma forma somos bem mais bonitos do que alguma vez fomos. Falamos do passado, do presente, dos entretantos da vida. Vidas que foram bonitas, tristes e alegres, feias por vezes mas que nos trouxeram ao agora e que a mim me fizeram lembrar o meu irmão.

Os irmãos mais velhos, aqueles que servem de guia para a vida dos mais novos, os que nos ensinam o que fazer, como, quando e acima de tudo o que não fazer. Os que nos dão todo esse ensinamento que os mais novos se esforçam por não dar valor mas que faz agora um sentido único, trazendo toda uma beleza desconhecida. O meu, perdi a conta a namoradas, amizades coloridas, e amigos. Amigos genuínos. Aquele que se contava pelos dedos as namoradas que não viraram amigas a seguir porque embora mulherengo, sempre foi fiel e quando amava, fazia-o intensamente (magoando-se muitas vezes e levantando logo a seguir com a mesma intensidade), quando o amor se acabava, o seu coração continuava a emanar amor mas como amigo e por isso, nunca se afastou. Sempre ensinando-me que isso é possível embora nem sempre seja fácil para os outros, entender. 

Confesso, tentei fazer o mesmo. Contam-se pelos dedos os ex-namorados com quem não fale ou cumprimente se passar na rua, porque o amor carnal acabou mas aquilo que me levou inicialmente a gostar dessas pessoas, não morreu, faz parte de cada um de nós e do nosso ser. Se estou com eles muitas vezes? Não. Porque as vidas mudaram, as prioridades também, o trabalho exigente, a vida familiar, os desencontros... e muitas vezes, por não querer de alguma forma ser a causa de insegurança de um relacionamento.

Eu que sempre falei pelos cotovelos mas quando era para falar de mim, sempre com muitos floreados talvez com a vergonha do peso das palavras. Assim o era para não me sentir despida. Uma coisa sempre foi despir-me de roupas e ser transparente, outra bem diferente, é sentir-me nua de pele. E muitas vezes acabava por não conseguir dizer o que realmente queria.

Mas hoje percebi que na vida, perde-se muito quando se cala o que se devia falar, sem medo, sem receio do impacto em terceiros. Lembrei-me que a vida não é feita de terceiros mas de primeiros e que as relações, sejam amorosas ou de amizade, se baseiam na mesma coisa: confiança. Um porto seguro que nos vai abraçar ou esbofetear, dar a mão ou um pontapé quando merecemos... E que dizer o que nos vai na alma, só vai fazer sentido para essa pessoa e mais ninguém tem de entender, apenas confiar em quem eles decidem ter como primeiros.

E assim hoje, percebi que interiorizei o que me foi ensinado e pela primeira vez lhe dei uso. Perceber que o amor de agora é muito mais bonito e forte na amizade do que alguma vez foi no namoro. Percebi que amar alguém, pode ser muito mais do que amor carnal e ter várias formas e cores. Por isso mesmo, lembrei-me do meu irmão e sem vergonha nenhuma, falei o que calei até então. Eu amo este amigo. E sim, isso é possível mesmo sendo "casada" e mãe de filhos, porque o meu marido é o primeiríssimo e porque confia. E como confia, eu não escondo. Parece lógico mas infelizmente raro. Porque a sociedade nos ensina que homem e mulher não podem ser só amigos, e porque muitas vezes os terceiros, se esquecem que antes do namoro que têm, já existiam os amigos de cada um e o carinho que havia, não pode nem vai ser apagado ou menos carinhoso, só porque eles querem. Negar isso, só vai criar uma bomba de autodestruição para a relação ou para elas mesmas.

E por isso, obrigada mano. E um muito obrigada a esse amigo por me amparar na dor e na felicidade. Porque às vezes, raras nos tempos que correm, os nossos amigos são os melhores psicólogos e a nossa tábua de sanidade e salvação.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Missing you


 Hoje sonhei com um amigo. Desses que a vida separa num ou outro compromisso, desentendimento ou rotina mas que não desaparecem da nossa memória. Vivemos sempre tão atarefados, tão compenetrados em coisas muitas vezes cheias de nada, que nos esquecemos de ligar, de escrever, de falar... e eu tenho tantas saudades de escrever... mas principalmente, de ler... de "O" ler.

O sonho, esse, como tantos outros que tive, surge sempre exagerado em momentos que muito provavelmente nunca existirão mas não é isso que se trata, não é a tensão sexual, reprimida num qualquer desejo inconsciente que "vejo" no sonho... é a interpretação que dele fazemos. As legendas para quem não fala a mesma língua... É o desejo sim, de abraçar essa pessoa e lhe dizer que me faz falta. Mas ele não sabe. Não sabe que é importante na minha vida. Se calhar a culpa é minha que nunca lhe mostrei isso. Mas tudo tem uma explicação... ou porque não é meu amigo como eu sou amiga dele ou porque não quero passar a impressão errada com o meu modo de ser extrovertida, impetuosa ou simplesmente, demasiado cheia de afetos.

Disseram-me uma vez que sou tão querida por vezes com as pessoas, que as levo a pensar querer algo mais... Bolas, eu não vejo o mundo dessa forma, eu amo genuinamente os meus amigos, entrego-me de corpo e alma, mesmo que um dia, tal e qual uma relação amorosa, a amizade termine ou não seja correspondida.. Assim, dessa forma. Intensa, sem medo... pura.

Por isso mesmo hoje digo, sinto a tua falta. Muito.

Carta aberta

 

Inspiro. Expiro. Faço-o vezes sem conta antes de conseguir pegar na caneta. Porquê? Porque fazê-lo obriga-me a escrever e escrever, torna tudo tão real... E volto a respirar. Penso na força que me davas e no quanto acreditavas em mim mesmo quando mais ninguém o fazia. Eu devo-te isto, eu sei.. mas a coragem falta-me assim como o som das tuas palavras. 
Inspiro e antes de expirar, pego finalmente na caneta e aponto-a ao papel. Não sei o que queres que te diga nem por onde começar... a minha vida já começou contigo ao lado e agora perco-me nas milhares de aventuras, brincadeiras, palavras, brigas e acima de tudo amor, que não vamos voltar a ter. E desculpa se me sinto perdida ou sem saber por onde ir mas nunca vivi tão sozinha. E expiro.
Quero pedir-te desculpa. Por todas as vezes em que não acreditei em ti quando me dizias que certas pessoas não eram o que pareciam. Hoje, dou o braço a torcer para te dizer que tinhas razão... elas são bem piores do que contavas. E perdoa-me também, por não conseguir perdoar tal gente como tu farias mas não sou assim tão carinhosa. Sabes bem que no meu sangue corre um fogo que me ferve à flor da pele...
Páro por momentos e fito a tua janela. Eras o meu vizinho preferido (entre tantas outras coisas). A tua janela sempre tão cheia de vida, de luz, de ti... Rio-me quando me lembro do laser verde apontado à minha testa enquanto saboreava o meu café na marquise e tu lá do alto do teu prédio, a rir como quando éramos crianças. Conheço-te tão bem que consigo ouvir o teu riso agora. Olho novamente para lá. Tão só, vazia, escura... as vassouras desapareceram, a roupa a secar estilo bacalhau, também... a luz da cozinha em horas estranhas de quem cozinha maravilhas que agradavam a todos os palatos, apagou-se. Tu foste e levaste a vida da tua casa contigo.
Por vezes, aparece uma ou outra sombra que me atira ao passado ainda recente mas logo de seguida me esfaqueia o coração quando me lembro que não és tu... Não podes mais ser tu. Vais sempre sê-lo em mim mas e se um dia não fores?
Não o digo alto mas confesso-te aqui... tenho medo de me esquecer.. do tom da tua voz, da tua maneira de ser, do som das tuas gargalhadas, do teu cheiro, de ti e acima de tudo, de nós. Por isso mesmo prometo-te que enquanto eu me lembrar, não deixarei de contar as nossas histórias, boas e más, ao teu filho e aos meus, até ao ponto que eles te conheçam como nunca conheceram. E assim se eu me esquecer, serão eles a lembrar-me que eu tive o melhor irmão do mundo e que ele vive em mim.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Time ticking

12:10. Este número não é importante. O local era. Uma voz ao fundo dizia: "Ainda bem que ela veio... veio na hora certa" e outra que respondia: " Ela disse que tinha antecedentes.. ". Abri os olhos. Uma luz branca cegava os meus olhos ainda anestesiados. Uma cortina que me separava de todos. Ninguém ao meu redor. As vozes tinham-se calado e o silêncio parecia sufocar. Morri e não sei. Onde estou? A última vez que me lembro estava numa sala cheia de máquinas e uma cara familiar dizia-me que eu ia dormir. E acordei. Um homem de branco perguntava-me se estava bem e eu respondi-lhe com uma pergunta sobre as vozes que ouvi. "Não sei, ninguém me disse nada e eu não estava na mesma sala que tu"... Não sei porquê mas aquela resposta não me acalmou. Não abrandou o calor que eu sentia naquele momento como todos os outros de ansiedade. E assim, viria a descobrir, era mentira. Sabia mais do que eu e isso de certa forma, enervou-me. 
Trouxe-me chá e bolachas quando eu só queria sair dali. Tirou-me a agulha que só reparei que me magoava quando a puxou de mim. Lembro-me de olhar para a garrafa de soro antes cheia e agora vazia. Quantas horas são? Quanto tempo passou? O que aconteceu? Mas ninguém me respondeu. Veio a cara familiar. Acariciava as minhas pernas enquanto me dizia: "Vieste na altura certa, sabias?". Mais uma vez aquela frase. Dita por outra boca. Respondeu à minha pergunta e acalmou a minha ansiedade. Estava perto de saber o que tinha acontecido.
"Não sabemos ainda o que é mas sei que vieste na hora certa...". Vou morrer? É agora? Se é que me digam para que eu me mentalize pela milésima vez o quanto parva sou sempre que adio os meus sonhos ainda por realizar. Sempre que fico parada a olhar para um computador sem reacção. Todos os dias que vou trabalhar em algo que odeio com todas as forças mas que me deixo ficar por pagarem razoavelmente bem. 
"Ainda é cedo para prognósticos. Mas não te preocupes. Vieste na altura certa". Parem de me dizer isso por favor. Há alguma hora certa para estas coisas? Mas calei-me e sorri. Vesti-me e antes de sair porta fora tive de suster a respiração e preparar o que não se prepara. Ter de dizer à minha mãe que tinha ido na hora certa. E logo eu que sempre vou atrasada. E depois ao resto da família. 
Agora sentada nesta cadeira onde tantas vezes páro no tempo, dou por mim a pensar que só em ocasiões como estas, é que consigo ver e sentir o peso da herança genética. No mal e no bem. No que me levou ao médico e levou tantos outros perto de mim. Na força que sempre pensei ser exclusiva do meu avô e mãe. No parar o sentimento e deixar que o racional tomasse conta de mim como a minha avó... ahhhh mas eu sou o meu pai também e lá bem no fundo, o medo adormecido está a despertar... Vem o meu irmão e diz: "Tretas". Não. Não são tretas. Só o contacto com aquilo que por vezes me assusta mais que o medo de morrer... realidade. 
Daqui a uns dias sei se fui na altura certa ou não. Saberei quem estava dentro de mim e o que queria. Saberei se vai querer luta ou se apenas veio lembrar, que o mal não acontece só aos outros. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Nicht mehr und nicht weniger

De Julho directamente a Setembro. Um mês pelo meio, repleto de nada. Nada aconteceu... que mereça a pena de ser contado. Nada de novo, nem de velho. Nada melhor nem pior. Apenas nada. 
Os dias continuam a passar. Os horários trocados que me matam aos bocadinhos e trocam as voltas. De mim mesma e dos outros. E o mundo devia ser mais do que isto. Do que acordar de madrugada para voltar tarde. Demais. Do que voltar a uma casa onde só a gata me espera... nem sempre pelas razões que quero acreditar. E quando reparo, é hora de ir dormir porque no dia seguinte há mais do mesmo.
Farta. Mas ninguém quer saber. Nem eu pelos vistos. Senão revoltava-me. Pegava no telefone e ligava aos amigos. Tomava uns copos. Esquecia-me da rotina por umas horas e voltava a casa com a sensação de dever cumprido. Ou não... Faz muito tempo que a vida é mais do que isto. Ou pelo menos deveria. Já não tenho paciência para conversas de circunstância, interrompidas por uma selfie ou mensagem no telemóvel, com pessoas que lutam para evitar aquilo que mais procuro... evolução. 
E por isso mesmo, mantenho-me aqui. Sempre sonhadora mas à espera de um momento certo para ser correctamente incorrecta. De abrir a boca e mudar o mundo. O meu. Já tem data e o relógio não pára... é o verdadeiro "ou vai ou racha" porque se for para continuar assim, mais vale desistir. E eu, não quero mudar nada nem ninguém, apenas não quero ficar igual aos demais.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Caos

Saio sempre naquela paragem. Sozinha no meio de uma multidão de pessoas que não notam a minha presença. Depois de meia hora sentada num lugar cansado do peso de todos os outros e eu cansada de tudo à minha volta. Um banco sujo que já ninguem quer lavar. Lá fora, pela janela, vejo o sol que me sabe a cinzento. Faz muito tempo que já não vejo a cores. Nem no céu nem nas pessoas. Nem nas cores nem na cidade. Dizem que nasci aqui e no entanto eu questiono a mim mesma, porque é que me sinto tão estranha a ela?
E a dúvida não me larga... se é minha, porque é que não conheço as ruas? As mesmas onde me perdia sem me perder e que agora nem vontade dá de lá ir? Porque é que não vejo as mesmas lojas ou cafés que costumava ir? Porque é que se tornou mais dificil encontrar um tripeiro do que um estrangeiro? Onde pára a senhora que de porta em porta, vendia bolachas ou peixe, dependendo da estação do ano? Onde vivem agora as minhas vizinhas que de tanta curiosidade, se escondiam atrás das cortinas? Quem são estes vizinhos que nem bom dia me dizem? Onde pára o dono da mercearia da esquina que envolto em mentiras compulsivas, brincava que a crise não existia.. Soubesse ele... que tinha mais razão do que pensava... a crise de dinheiro não existe... ele anda por aí... em bolsos alheios, errados... só não nos nossos... mas a crise de valores? Essa veio para ficar... crise de valores. De educação. De boa vontade. De humildade. De honestidade. De alguém que ainda não tenha desistido de ensinar esses mesmos valores aos outros. Deixaram de comprar na mercearia porque as couves eram do campo e vinham com bicho enquanto as do supermercado embora mais caras, vinham carregadas de químicos que matavam qualquer bicho...nós incluídos. Deixaram de comprar as bolachas caseiras e o peixe porque a senhora não seguia as regras da ASAE mas as de pacote industrial e o peixe recongelado vezes e vezes sem conta, sim. As pessoas deixaram de escrever ou falar umas com as outras quando descobriram que o podiam fazer por redes sociais. E quando descobriram que podiam publicar fotos, começaram a odiar-se e a competir por quem tinha a melhor selfie. Os revoltados que levaram porrada a vida toda por serem mal educados, foram pais. Criaram os filhos a serem a semelhança da sua imagem e esses, tiveram filhos com metade da idade sem saberem que eles não eram bonecos mas sim humanos inocentes. Quem os ensina? Quem toma conta deles? O estado. Os contribuintes. E os bancos? Continuam sujos porque a mulher da limpeza ganha mais em casa com os abonos e RSI's do que a cansar as unhas de gel. E os que trabalham? Como eu e milhares? A descontarem para uma reforma que nunca vai chegar porque está a servir de mesada de algum outro que os está a coçar enquanto bebe mais uma cerveja. E o empregado pergunta: Vai mais uma? Claro que sim... não é o senhor que a paga mas alguém o vai fazer... 
E eu saio naquela mesma paragem de sempre. É dia da semana e a multidão está a ir para a praia... eles trabalham para o bronze e eu para lhes pagar o creme protector. Vou ali lidar com quem faz dos restantes um tapete onde limpam os pés e no final deitam fora porque está velho e sujo e já volto. Daqui a nove horas. Quando já estiver cansada o suficiente para que só queira a cama. "Mas ganhas bem"- dizem-me... Ganha a conta bancária e perco a saúde... será que vale a pena? Vou ser rica num corpo que se arrasta? Pior, vou ser rica quando for velha e não tiver feito nada na vida porque não tive tempo... É isto? A vida tem de ser muito mais do que isto.
"Estás tão má"- dizem... não... má era se não me controlasse e andasse por aí de G3 aos tiros sobre tudo o que me irrita... mas aí, era ser igual a muitos outros.. e eu, para o bem ou mal, sou do contra. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

domingo, 14 de maio de 2017

Pensamento da noite


Hoje vi um homem chorar. Como menino grande ou homem pequenino. As lágrimas correram por fim e eu sorri. Afinal de contas, um homem também chora e isso tornou-me mais feliz. Mais certa que não é imune às emoções. E confiante de que daqui para a frente as coisas vão ser melhores... Sei que um homem não gosta de chorar. Mas Homem com "H" grande também o faz... e hoje foi a tua vez. 
Disse-lhe: "Não chores assim que ainda vão pensar que estás triste por o Benfica ter ganho" mas sei no fundo de mim que aquelas lágrimas eram genuínas.. Por ti, por mim, pelos outros, por nós e pela vida. E por isso mesmo, adoro-te!

terça-feira, 9 de maio de 2017

Old story...New beginnings.

Não me conheceste. Quando era miúda. Quando cresci e deixei de brincar com bonecas para brincar a coisas de rapazes com o meu irmão. Quando vivi as primeiras aventuras ou quando corria pelos campos da quinta com as minhas botas vermelhas, apanhando flores e fantasiando conversas com os insectos. Nem poderias acreditar agora, que houve um dia em que não tinha medo das abelhas, das joaninhas, e demais bichos. Não estavas lá quando caí daquela maldita rocha e fiquei com medo de alturas. Não estavas lá nas escolas para me proteger dos maus e das maldades dos outros. Não estavas lá para evitar o meu primeiro desgosto de amor ou para impedir que o repetisse vezes e vezes sem conta. Também não me lembro de ti a agarrar os meus cabelos na primeira bebedeira.. Não estavas presente porque não me conhecias. Acho que ainda hoje não o conheces. Não te culpo. Não te julgo. Eu explico-te. Sou apenas uma mulher que ainda outro dia era assim... pequenina, aventureira e que gostava mais de construir carros de rolamentos com o irmão do que brincar com bonecas. Gostava mais de jogar futebol do que saltar à corda. E isso valeu-me muitas fugas às freiras que tomavam conta de mim no colégio. Sempre fui mais "Maria-rapaz" do que uma "Barbie" e nunca gostei delas, honestamente. Se me vires de saltos altos e maquilhagem de guerra, acredita que é apenas pela piada que acho, em me transformar em algo tão diferente do meu ser. E na tua cabeça paira a dúvida: "Mas quem és tu afinal?"... Digo-te que sempre me conheci muito bem, só não sei como me encaixar no mundo e por isso sinto muitas vezes (mais do que gostaria), que não pertenço aqui, No meu mundo, não há lugar para nada disto... nem para traições nem para lágrimas. Nem para dúvidas ou arrependimentos. Não há lugar para maldade nem vinganças. Nem eu vejo ou consigo ser, má... O mundo que habito, é diferente do teu, Tentei trazer-te para ele para que não sofresses mais. Para que compreendesses que de todos os seres que vais encontrar, nenhum será bem exactamente como eu... Ninguém possivelmente te vai agarrar a mão e fechar os olhos a tudo o que acontece em ti ou na tua vida.. Isto não é achar-me melhor que os outros, é apenas saber que as pessoas vivem de uma coisa contrária à minha essência: Aproveitamento próprio e egoísmo... E eu pensava que te conhecia... Sempre tão calado, meigo mas carente ao mesmo tempo. Tão frágil num corpo tão forte. Reservado nos afectos.... esses dás apenas para os que conheces bem... E eu gostava disso... eras tão parecido comigo que não percebi que afinal eras apenas uma projecção do que eu queria ver. Quando falhaste comigo, senti como uma traição... mas afinal a culpa não era tua... era de quem te deu a mão sem te conhecer ainda bem... a culpa foi minha... talvez por não me conheceres. Por temeres que eu fosse como a maioria das pessoas que foste conhecendo... Alguém que se aproveita do que tens e dás e que foge quando já não interessas... mas eu não sou assim. E como tal, o que sinto agora é também diferente do que possas imaginar. Voltou a mim a menina rapaz que fui um dia... a que não tem medo de arregaçar as mangas e sujar as mãos para bater em alguém quando se sente ameaçada. A que dá murros como um rapaz e não puxa cabelos como as meninas. A que atira pedras e dá pontapés para se defender.... mesmo que seja contra ti... 
Lá fora a chuva cai sem parar e tu não estás aqui. Alguma vez estiveste realmente? Alguma vez pegaste na minha mão de forma tranquila? Alguma vez me conheceste ao pormenor? Eu sei bem quem sou. Só não sei o que sentir. Hoje, sinto apenas que nunca te conheci.

domingo, 7 de maio de 2017

Dia da mãe

Acredito que todos nós temos várias profissões. Eu sou a namorada. A mulher. A trabalhadora. A irmã. A filha. A tia. A amiga... podia ter mais... mas como aquele emprego de sonho que todos gostávamos de ter, este é mais difícil...
Dizem que hoje é dia da mãe. Mentira, hoje é só mais um dia consumista que nos faz abrir os cordões à bolsa para comprarmos algo a quem nos deu a vida e assim talvez as fazer esquecer ou perdoar os restantes dias do ano em que não lhe demos a devida atenção... Eu não consigo... desde pequena que gosto de agradar a minha mãe... a minha avó... quem me tornou em quem sou. Nunca foi só pelo dia. Mas pelos dias. Pelos anos. Pelos momentos. Pelos constantes conselhos e ajudas. Pelas gargalhadas e choros partilhados. Pelo bem e pelo mal. Mas os anos passam. E eu envelheço. Com sonhos de menina por cumprir. E este é um deles. Com 36 anos, este ano foi de todos o mais difícil. Nos restantes dias dos anos, sempre me lembram que a idade aperta... vejo-o nas fotos das amigas que celebram o 2º filho. Sinto-o quando a família me pergunta quando vou ganhar juízo. Sei que não fazem por mal mas será que sabem que não é culpa minha? Engravidar de alguém à toa só para ser mãe é ter juízo? Engravidar e não ter dinheiro para sustentar, é ter juízo? Não. É irresponsabilidade. E não é por isso que não sou mãe também. É por toda a falta de oportunidades na vida. É pela insegurança de um futuro em que não há futuro. E no entretanto os anos vão passando... Em mim, nos outros... de forma diferente... E eu vejo-os em todo o lado... nas ruas, nas fotos, à mesa de jantar hoje à noite... em que de todas as mulheres ali sentadas, eu era a única vazia. A única sem direito a um presente feito na escola. Sem direito a alguém que me chamasse de mamã. Alguém sem uma marca na Terra. E alguém sem histórias para contar. Era a irmã. A filha. A cunhada e a tia. Mas em mim, sempre a mesma sina. Mãe emprestada, seja no emprego ou como tia. Como babysitter de alguma amiga mas nunca a mãe de sangue. 
Dizem que é dia da mãe. É. Como em todos os outros dias. Mas quando chegará o dia em que será também o meu dia?

Yep...X

X+2=?

Um mais um igual a dois. E por vezes, um mais um igual a três. Dos dois veio um terceiro e de repente ficamos um. Eu. Sozinha. Numa cadeira quente e outra vazia. Quem entra em minha casa, sabe que as cadeiras que cá tenho estão todas ocupadas. Uma almofada ali, um cobertor aqui. Uma peça de roupa esquecida na cadeira ali do fundo. A gata a dormir noutra. E eu. Ao computador enquanto fito o cursor a piscar no ecrã. Tudo menos uma cadeira vazia. E no momento em que ela foi ocupada, alguém a tratou de esvaziar. E eu não sei lidar com isso. Tentas preencher esse vazio mas eu não te conheço mais. Quem conheci afinal não era. Quem eras eu nunca soube. Sei agora mas já não sei o que pensar. Por muito que digas que tudo perdura igual a verdade é que nada nunca foi. E eu no meio de uma equação que não pedi para fazer parte. Daquelas que nunca se chega a uma solução. Sempre te disse que tinha péssimas bases de matemática e mesmo assim insistes. Eu sou o "X" que numa equação dava dois quando me somavam com alguém... Eu fui o "X" que alguém tornou em equação: X+2=0 logo, X= -2... e foi isso que me aconteceu. Perdi dois. Fiquei eu. Sem pedir... quando queria mais. Queria o mesmo mas de maneira diferente. Maneira que nunca será. 
Há no ar um misto de felicidade e tristeza. Feliz por ti. Infeliz por um futuro que não vai ser como sonhei. Egoísta? Talvez. O tempo assim me fez e eu pensava que lidavas bem com isso... Por ti tentava ser mais e melhor quando me deste o pior de ti na calada dos momentos. Lutei como nunca por algo em que apenas eu acreditei. Parva? Talvez... a realidade é que chegou um dia em que eu pensei realmente que era possível. Ingénua como uma criança que guardo em mim. 
Fito a cadeira vazia. Eu luto por ela. Por a preencher de volta. Só não sei como. Quando. De que forma. E infelizmente, já não te posso fazer mais promessas... porque agora sei que só eu é que não as quebrei. Por isso mesmo, não me faças perguntas às quais não te sei responder. A matemática nunca foi o meu forte... E aparentemente, o amor também não.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Perhaps

Piada da noite

" Aquilo não é um homem. É um vírus que se apanha nas casas de banho e locais públicos"

By: Herman José in RTP Memória sessions

23h:30m

Faço as contas. São seis da manhã. São 36 anos de vida e histórias, numa cabeça que actua como se tivesse 14. Ninguém me dá a idade que tenho e nunca percebo se isso é bom ou mau. Interessa? Não. Depende. Dos dias e dos humores. Da altura do mês ou da situação. No final, não me diz nada. Apenas que é mais um dia a respirar. Mais um ano para aproveitar. Momentos bons. Maus. Estranhos. Extraordinários. Abstractos. E sim, mais um dia a recusar escrever com o acordo ortográfico com o qual não me identifico. Não me interessa minimamente. Interessa-me sim o que me rodeia. Quem me moldou no que sou. Em quem me transformei. Não acho que seja má pessoa mas também não sou perfeita. Nem quero ser. Quem gosta, gosta, quem não gosta... gostasse. 
São seis e quinze da manhã e lá fora o céu não colabora com o dia de Primavera... São seis e meia e o meu dia parou ali. Já não é o dia dos meus anos e na minha memória ainda são seis e meia. Mesmo que tenha passado uma hora sentada numa cadeira a fitar o vazio sem mexer um fio de cabelo. Apática. Sem reacção. Será que estava a respirar? Não dei conta. Sei que estou aqui. Uma da manhã do dia 5... E continuo na mesma. Apática. Abstracta. Os pés que teimam em não assentar no chão. O pesadelo que insiste em não acabar e me prende num sono profundo e angustiante. Espero sem esperar que alguém me puxe daqui para fora. A verdade é que voltei ao mesmo abismo do costume e a tábua que me suportava já é velha e quebradiça. Não sei se tenho mais forças para sustentar o meu peso nela. E muito menos compreendo porque acabo sempre aqui. Mas cá estou eu... sem saber se aqui estou porque mereço. Porque me empurraram. Porque é algo que tenho de superar. Ou por outra qualquer explicação... se é que há uma. 
A verdade é que acho sempre que não posso agradar a gregos e troianos mas todos eles acabam por me matar aos bocadinhos... e eu deixo... mas eu também tenho sentimentos. Também sinto aquela faca invisível que espeta devagarinho no centro de mim. Será que isso importa? E porque é que eu permito que isso aconteça constantemente? 
É só mais um dia. Happy Birthday. Welcome to the same story. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

quarta-feira, 1 de março de 2017

Chapter 2

Os anos continuam a passar por mim e cada vez mais, a certeza que não pertenço a esta cidade. Não é grande o suficiente para o tamanho dos meus sonhos e é gigante para que eu possa sequer, pensar em ser feliz. Eu... eternamente eu, tão complexamente simples. Banal e normal. O meu cabelo desgrenhado e longe de ser perfeito, a carregar na cara e corpo as imperfeições da idade... Não chamo a atenção pelas minhas formas mas sim pelas formas que me comporto... É difícil ver uma lágrima na minha cara e se alguém vir, é porque me ri demais... Mas aqui na cidade, tem sido mais normal verem a tristeza. De quem tem de por uma máscara todos os dias para se proteger da realidade... e de que tenho eu medo? De nada. De tudo. De não saber crescer. De envelhecer mal e amarga. Das alturas. Da água. De abelhas e insectos. Da morte. De não cumprir os meus sonhos. De não ser feliz... 
Mas houve um dia que não tinha medo de nada disso... fora daqui... fora da cidade que me fez ter medo do que não é suposto ter.
Só queria regressar lá, um pedaço de terra onde eu pudesse acordar todas as manhãs e dar graças por estar viva. Ver o nascer e o pôr do sol todos os dias. Os pássaros a cantar numa árvore perto da minha janela.. Por a chaleira ao lume e não ter de me preocupar com trânsito ou estar atrasada. A vida tem de ser mais do que isso. Do que trabalhar e dormir. Comer e voltar ao trabalho. 
E eu, tão simples... a eterna criança que nunca vou fazer ou encontrar um sentido para aqui estar... tão só. Tão vazia. Sem ti.