quarta-feira, 11 de junho de 2014

Bis später...

Dizem-me que Hoje salvei uma vida e nem por isso me sinto melhor. Pelo contrario...sinto-me horrivelmente chocada e angustiada. Agora sozinha pergunto-me se salvei mesmo ou apenas prolonguei a espera da morte. 
Hoje cheguei a casa e mais do que nunca quis ter filhos. Não um, nem dois... Três, quatro, um rancho deles... Quis dar vida a quem ainda não nasceu e não propriamente a quem já se esqueceu do que é viver. A quem está cansado demais para estar de olhos abertos à espera do final dos dias. A quem tudo o que melhor podiam dar era o descanso das suas casas. Mas eu tirei-lhe isso. Salvei uma mulher demasiado cansada pelos anos que carrega mas milagrosamente viva, de uma casa que morria primeiro do que ela. Bastou uma chamada para a emergência para lhe abrirem a porta...eles vieram e levaram-na daqui. Longe da sua casa, do lixo que se acumulava em todo o lado mas não a corroía, do pó a reclamar mais de uma década de existência, do bolor que criava netos numa casa vazia de família.  E é triste... Chegar aos noventas e não ter ninguém a quem ligar, ninguém para a ajudar, ver o que vi hoje dentro do seu canto e ficar marcada para o resto da vida, sem poder apagar de mim a imagem de uma cozinha preta do tempo, fechada a chave para não deixar passar bicho a outras divisões que serviam de cemitério a outros tantos mortos numa batalha que só ela, sem que eu entenda como, sobreviveu. 
Dizem-me as mesmas pessoas, que é para o bem dela, que vai ter a dignidade que merece mas na minha cabeça guarda ainda os protestos e choro dela quando a levavam para a ambulância. Memórias de outros tempos mais limpos mas penosos da mesma forma. Ela não vai voltar aqui, um dia destes vem uma equipa fazer a limpeza porque é uma questão de saúde pública e ela ficará os restantes dias que lhe restam, num sítio estranho a ela. Longe dos seus animais de estimação que agora voam noutra direcção e a culpa será sempre minha. 
Um dia destes quando a for visitar, vou pedir-lhe um perdão que ela não vai entender por algo que fiz por não ser capaz de ver alguém assim ao abandono. Vou-lhe pedir perdão por não a ter deixado morrer ali mas estar a matá-la na alma por estar longe daquilo que imundamente a fazia feliz.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Palavras mudas

Acreditarias se te dissesse que sei mais do que corre em ti do que sabes? Se te dissesse que tudo na nossa vida acontece primeiro aos ouvidos dos outros do que em nós mesmos? Que com isso ganhamos defeitos e virtudes que não são nossos? Odeiam-nos sem sabermos porquê, amam-nos pelo que não somos e contam histórias que não retratam a nossa vida ou a nós mesmos.
Acreditarias se te dissesse que tudo isso para mim é pedaço de um bolo estragado que me forçam a comer? Se te dissesse que preferia não comer. Não ouvir. Não saber? Mas os ventos são tão fortes e ruidosos que só tu não os ouves. Todos sabem. Todos ouvem. Todos comem. Com um prazer distorcido e retorcido em mil e uma migalhas bolorentas que contaminam a nossa vida de parasitas invisíveis que nos matam aos poucos, numa morte lenta que só sentimos quando já não há mais nada a dizer. 
E eu calo-me é verdade. Não consinto. Apenas não sou mais do que os outros. Mais do que tu mesmo. Nos pedaços de moral que me restam, não sou ninguém significante. Eu esforço-me por me lembrar de um momento que não tenha errado. Algo que me perdoe a modéstia e me deixe falar. Contar-te que o mundo está cheio de gente má que te idolatra a um ponto obsessivo... Mas quem sou eu? Eu, mal me compreendo a mim. Quem sou eu para julgar os outros? Quem sou eu para os calar desse vício do qual parecem alimentar-se numa constante matança de sede de vigança sem razão? Quem sou eu para dizer que erraste? Quando muitas vezes o erro... Não foi nosso... Eu já tinha dito noutras linhas, noutro texto, noutro discurso em pensamento, numa conversa que nunca aconteceu.. Sou e serei sempre aquela que tudo sabe e nada pode contar.

domingo, 11 de maio de 2014

Time is running out

Já não há tempo para escrever. As linhas deixadas ao abandono, esperam por mãos mais capazes, que as preencham. Com palavras bonitas, curtas ou compridas que embelezem a realidade fria e feia que vivemos.
Não há tempo para falar. As mesas vazias cobertas de pó com as cadeiras deformadas pelo peso do passado, continuam a vista como prova de que um dia houve tempo para nos sentarmos, sozinhos ou acompanhados, escrevendo ou falando com alguém.
Nestes dias em que o tempo não tem tempo, já
 ninguém escreve cartas. Não há tempo para escrever e também não saberiamos o que dizer porque paramos de falar.
Paramos de ouvir. Não por surdez mas por uma estranha forma de agnosia auditiva. Somos nós que nos esquecemos dos sons das palavras, do seu sentido e conscientemente, matamos o contacto.
Do viver em sociedade passamos a ser sós. Egoístas, mesquinhos, calados. Temos todo o tempo do mundo para viver e no entanto preferimos morrer.
Não há futuro num presente que se mata. O suicídio mental tomou conta de nós e esperamos apenas que alguém tenha a coragem que nós não temos e nos desliguem as máquinas.
E eu escrevo. Sentada numa cadeira que insiste em não deformar, sacudindo o pó que se acumula e falando sozinha para não esquecer as palavras ou o som delas. Sei que sou una e talvez um dia não resista mais... assim de repente, faltarem-me as forças e transformar-me em mais uma nesta multidão que se empurra e atropela... Mas até lá falo. Escrevo. Grito. Revolto-me. Na esperança que alguém ouça e acorde deste coma induzido que se instalou.

Out of time

Mais lenha. Acumulas. Guardas mais um tronco de sorriso rasgado. Sabes que te queimas a cada acha que deitas na fogueira mas ages como se nada fosse. Calas a dor da mesma forma que o fazes com as palavras. Em seco. Guardas para ti a ira que acumula, perdes o tempo e a oportunidade certa de a cuspir a quem a merece e lanças mais um tronco. Até quando? Por quanto tempo vais guardar-te da verdade? E eu aqui. Sentada à espera do dia D. Vejo como através dos teus gestos, acendes o rastilho da bomba que não conseguiste acender com palavras. Falta pouco. Anos de acumulação têm peso de bomba atómica. Será que os outros estão preparados?
A bomba vai explodir e tu és o primeiro a querer fugir. Tarde demais. A bomba é tua e de mais ninguém, estás preso a ela. Vai explodir e serás tu a receber o maior impacto... Os outros, receberão apenas os restos de pó e pólvora. Palavras distantes e sem importância para eles.
E eu aqui sentada, serei eternamente aquela que tudo sabe mas nada te pode contar. E desculpa se sei disto tudo e continuo calada. Na boca tenho um trapo que me emudece e uma perna presa à cadeira. Desta vez não te posso ajudar porque essa cama, foste tu que a fizeste... Só te resta dormires nela.

Insolúveis

Somos a àgua e óleo que nunca se unem. Quando fervemos, há a ilusão que nos unimos momentaneamente mas assim que se apaga o lume, voltamos a ir cada um para o seu canto.
Somos feitos de diferentes  matérias. Fervemos a diferentes temperaturas e nunca seremos um realmente.
E podemos fingir que sim, que andamos de mãos dadas, que seremos felizes e gritarmos que seremos eternos mas isso é apenas uma negação de uma realidade triste mas verdadeira.
Eu e tu, somos sempre os que andam e dançam lado a lado mas nunca um com o outro.

domingo, 27 de abril de 2014

We are... nothing

Nada do que vivemos, foi em vão. Nada do que dissemos, esquecido. Às palavras e gestos, guardo-os em mim como os sonhos... esperando dias melhores.
Mas não me peças para pensar. É sempre quando o faço que tudo vira confusão. Conquistamos algo sem querer, melhoramos, sem esperar e somos ainda jovens com os mesmos sonhos da criança que por vezes negamos.
Não há nada entre nós e pelo meio há o mundo inteiro.
Somos partículas de pó que quando se unem transformam-se em grão. De amizade. De sorrisos. Boas conversas, para no fim tornados a casa, virarmos pó outra vez. Estamos tão longe e sempre tão perto, nessa linha imaginária de pensamento que de uma ou outra forma, somos mais, melhores e maiores. E não chega.
Faz muito tempo que parei de pensar. Porque complica. Porque distorce. Porque me ilude as ideias e sentimentos. E fica tudo guardado. Até um dia melhor.

Dreams

De vez em quando visitas-me. Sempre do teu jeito e nunca como eu gostaria. Os convites feitos ao vento e as súplicas mudas nunca fazem efeito em ti.
Visitas-me sem bater à porta, sem fazer barulho, sem trazer uma garrafa de vinho na qual nos possamos afogar. E é assim que te vejo. Como uma presença num qualquer canto da minha casa com o mesmo ar de quem vê um filme. Sorris o sorriso que me conquista. Abres os teus braços fortes e deixas que eu me enterre no teu aconchego. Basta isto para voltar a acreditar em ti. Perdoo-te o jeito invasivo de me espiares a privacidade e fecho os olhos. Adormeço profundamente nesse momento para mais tarde abrir os olhos e perceber que abraço o ar. O nada. Sempre tão mais forte que o tudo.
Vens sempre quando menos espero e somes quando menos quero. 
E fico entregue a mim. Não sinto mais a sensação de ser observada e volto a ser eu sozinha entre 4 paredes. As mesmas onde acordo todas as manhãs após sonhar contigo. Espero um dia, não precisas de dizer qual, encontrar-te eternamente disponível... com todos os sonhos do mundo e sem tempo contado.

25 de Abril

Dia 25 de Abril passado entre a casa de banho e a cama, a vomitar as politiquices de bolso e falsas promessas. No fim disto tudo, tudo gira em torno do mesmo... Kilos perdidos e a cara pálida perante a realidade estragada de um bolo que alguém nos prometeu e vendeu como sendo o melhor.
Já alguém disse em tempos, que "a revolucao nao passa na televisao, ela tem de acontecer dentro de cada um de nós"... mas será que ainda anda aí alguém capaz de a fazer? De a compreender? De aceitar as vitórias mas também as consequencias?
É que nao basta chá e torradas nem muito menos frango cozido e canja.
A revolucao faz-se de sangue, vómitos, suor, calafrios, actos, gestos e palavras.
E viva a revolucao. Do corpo, mente e alma. Seja lá o que isso for. 
Para quem me le, que se lembre ao menos que sem revolucao, eu estaria a ser torturada por estas palavras, lado a lado com quem as leu.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Uma vez mais, nós.

Recentemente comecei a escrever a nossa história... pela enésima vez. Inspirada por uma qualquer idéia saloia de que ela merece ser contada. 5 minutos e folhas depois, isso passa. E volto ao zero em que nos encontramos agora. Que história contar? Que verdades saudosistas lembrar? Como falar de tristeza sem voltar ao fundo do abismo outra vez? Merece ser contada? Porque nao a quero esquecer? E lembrar para? Nao mudará certamente um ponto ou vírgula dela. Muito menos do final que nao foi escrito. Páro. Mais um copo de vinho perdido entre outros. Deixo ebriamente que ele me embacie o contacto com a realidade recente e escrevo mais umas linhas.Consigo ser fiel ao que fomos e vivemos. Continuo. Até onde nao há mais continuacao. Nao há um final. Há um último encontro repentino e apressado sem direito a "adeus". Como quem vai comprar cigarros e volta já, passados 6 anos. Há um lapso no tempo. Há um coma induzido em nós quando o resto do mundo envelheceu. Pior, maior, diferente, melhor... Interessa?
Bloqueio. Odeio-te por deixares para mim o triste peso de escrever o "adeus". Eu nunca quis esse papel e nem consigo pensar no "para sempre" em contexto de despedida. Mas é destas maos frageis que ele depende... no final, sou eu a culpada de nao o saber escrever sem que inevitavelmente aceite a derrota do mundo e a perda do meu melhor amigo.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Meio texto


O mundo está cansado de meias verdades. Meias mentiras. Meias palavras. Meios rodeios. Meias incertezas.
Não há mais espaço para dúvidas ou falta de coragem. Serão os olhos dos outros tão juízes como pensamos? Tão fatais? Frios e críticos? Dependemos assim tanto deles que nos sintamos forçados a viver a mentira à luz do dia e a verdade debaixo dos cobertores?
De quem temos medo? Dos olhares de incompreensão dos outros ou da nossa própria compreensão em tudo que somos e sentimos?