terça-feira, 9 de maio de 2017

Old story...New beginnings.

Não me conheceste. Quando era miúda. Quando cresci e deixei de brincar com bonecas para brincar a coisas de rapazes com o meu irmão. Quando vivi as primeiras aventuras ou quando corria pelos campos da quinta com as minhas botas vermelhas, apanhando flores e fantasiando conversas com os insectos. Nem poderias acreditar agora, que houve um dia em que não tinha medo das abelhas, das joaninhas, e demais bichos. Não estavas lá quando caí daquela maldita rocha e fiquei com medo de alturas. Não estavas lá nas escolas para me proteger dos maus e das maldades dos outros. Não estavas lá para evitar o meu primeiro desgosto de amor ou para impedir que o repetisse vezes e vezes sem conta. Também não me lembro de ti a agarrar os meus cabelos na primeira bebedeira.. Não estavas presente porque não me conhecias. Acho que ainda hoje não o conheces. Não te culpo. Não te julgo. Eu explico-te. Sou apenas uma mulher que ainda outro dia era assim... pequenina, aventureira e que gostava mais de construir carros de rolamentos com o irmão do que brincar com bonecas. Gostava mais de jogar futebol do que saltar à corda. E isso valeu-me muitas fugas às freiras que tomavam conta de mim no colégio. Sempre fui mais "Maria-rapaz" do que uma "Barbie" e nunca gostei delas, honestamente. Se me vires de saltos altos e maquilhagem de guerra, acredita que é apenas pela piada que acho, em me transformar em algo tão diferente do meu ser. E na tua cabeça paira a dúvida: "Mas quem és tu afinal?"... Digo-te que sempre me conheci muito bem, só não sei como me encaixar no mundo e por isso sinto muitas vezes (mais do que gostaria), que não pertenço aqui, No meu mundo, não há lugar para nada disto... nem para traições nem para lágrimas. Nem para dúvidas ou arrependimentos. Não há lugar para maldade nem vinganças. Nem eu vejo ou consigo ser, má... O mundo que habito, é diferente do teu, Tentei trazer-te para ele para que não sofresses mais. Para que compreendesses que de todos os seres que vais encontrar, nenhum será bem exactamente como eu... Ninguém possivelmente te vai agarrar a mão e fechar os olhos a tudo o que acontece em ti ou na tua vida.. Isto não é achar-me melhor que os outros, é apenas saber que as pessoas vivem de uma coisa contrária à minha essência: Aproveitamento próprio e egoísmo... E eu pensava que te conhecia... Sempre tão calado, meigo mas carente ao mesmo tempo. Tão frágil num corpo tão forte. Reservado nos afectos.... esses dás apenas para os que conheces bem... E eu gostava disso... eras tão parecido comigo que não percebi que afinal eras apenas uma projecção do que eu queria ver. Quando falhaste comigo, senti como uma traição... mas afinal a culpa não era tua... era de quem te deu a mão sem te conhecer ainda bem... a culpa foi minha... talvez por não me conheceres. Por temeres que eu fosse como a maioria das pessoas que foste conhecendo... Alguém que se aproveita do que tens e dás e que foge quando já não interessas... mas eu não sou assim. E como tal, o que sinto agora é também diferente do que possas imaginar. Voltou a mim a menina rapaz que fui um dia... a que não tem medo de arregaçar as mangas e sujar as mãos para bater em alguém quando se sente ameaçada. A que dá murros como um rapaz e não puxa cabelos como as meninas. A que atira pedras e dá pontapés para se defender.... mesmo que seja contra ti... 
Lá fora a chuva cai sem parar e tu não estás aqui. Alguma vez estiveste realmente? Alguma vez pegaste na minha mão de forma tranquila? Alguma vez me conheceste ao pormenor? Eu sei bem quem sou. Só não sei o que sentir. Hoje, sinto apenas que nunca te conheci.

domingo, 7 de maio de 2017

Dia da mãe

Acredito que todos nós temos várias profissões. Eu sou a namorada. A mulher. A trabalhadora. A irmã. A filha. A tia. A amiga... podia ter mais... mas como aquele emprego de sonho que todos gostávamos de ter, este é mais difícil...
Dizem que hoje é dia da mãe. Mentira, hoje é só mais um dia consumista que nos faz abrir os cordões à bolsa para comprarmos algo a quem nos deu a vida e assim talvez as fazer esquecer ou perdoar os restantes dias do ano em que não lhe demos a devida atenção... Eu não consigo... desde pequena que gosto de agradar a minha mãe... a minha avó... quem me tornou em quem sou. Nunca foi só pelo dia. Mas pelos dias. Pelos anos. Pelos momentos. Pelos constantes conselhos e ajudas. Pelas gargalhadas e choros partilhados. Pelo bem e pelo mal. Mas os anos passam. E eu envelheço. Com sonhos de menina por cumprir. E este é um deles. Com 36 anos, este ano foi de todos o mais difícil. Nos restantes dias dos anos, sempre me lembram que a idade aperta... vejo-o nas fotos das amigas que celebram o 2º filho. Sinto-o quando a família me pergunta quando vou ganhar juízo. Sei que não fazem por mal mas será que sabem que não é culpa minha? Engravidar de alguém à toa só para ser mãe é ter juízo? Engravidar e não ter dinheiro para sustentar, é ter juízo? Não. É irresponsabilidade. E não é por isso que não sou mãe também. É por toda a falta de oportunidades na vida. É pela insegurança de um futuro em que não há futuro. E no entretanto os anos vão passando... Em mim, nos outros... de forma diferente... E eu vejo-os em todo o lado... nas ruas, nas fotos, à mesa de jantar hoje à noite... em que de todas as mulheres ali sentadas, eu era a única vazia. A única sem direito a um presente feito na escola. Sem direito a alguém que me chamasse de mamã. Alguém sem uma marca na Terra. E alguém sem histórias para contar. Era a irmã. A filha. A cunhada e a tia. Mas em mim, sempre a mesma sina. Mãe emprestada, seja no emprego ou como tia. Como babysitter de alguma amiga mas nunca a mãe de sangue. 
Dizem que é dia da mãe. É. Como em todos os outros dias. Mas quando chegará o dia em que será também o meu dia?

Yep...X

X+2=?

Um mais um igual a dois. E por vezes, um mais um igual a três. Dos dois veio um terceiro e de repente ficamos um. Eu. Sozinha. Numa cadeira quente e outra vazia. Quem entra em minha casa, sabe que as cadeiras que cá tenho estão todas ocupadas. Uma almofada ali, um cobertor aqui. Uma peça de roupa esquecida na cadeira ali do fundo. A gata a dormir noutra. E eu. Ao computador enquanto fito o cursor a piscar no ecrã. Tudo menos uma cadeira vazia. E no momento em que ela foi ocupada, alguém a tratou de esvaziar. E eu não sei lidar com isso. Tentas preencher esse vazio mas eu não te conheço mais. Quem conheci afinal não era. Quem eras eu nunca soube. Sei agora mas já não sei o que pensar. Por muito que digas que tudo perdura igual a verdade é que nada nunca foi. E eu no meio de uma equação que não pedi para fazer parte. Daquelas que nunca se chega a uma solução. Sempre te disse que tinha péssimas bases de matemática e mesmo assim insistes. Eu sou o "X" que numa equação dava dois quando me somavam com alguém... Eu fui o "X" que alguém tornou em equação: X+2=0 logo, X= -2... e foi isso que me aconteceu. Perdi dois. Fiquei eu. Sem pedir... quando queria mais. Queria o mesmo mas de maneira diferente. Maneira que nunca será. 
Há no ar um misto de felicidade e tristeza. Feliz por ti. Infeliz por um futuro que não vai ser como sonhei. Egoísta? Talvez. O tempo assim me fez e eu pensava que lidavas bem com isso... Por ti tentava ser mais e melhor quando me deste o pior de ti na calada dos momentos. Lutei como nunca por algo em que apenas eu acreditei. Parva? Talvez... a realidade é que chegou um dia em que eu pensei realmente que era possível. Ingénua como uma criança que guardo em mim. 
Fito a cadeira vazia. Eu luto por ela. Por a preencher de volta. Só não sei como. Quando. De que forma. E infelizmente, já não te posso fazer mais promessas... porque agora sei que só eu é que não as quebrei. Por isso mesmo, não me faças perguntas às quais não te sei responder. A matemática nunca foi o meu forte... E aparentemente, o amor também não.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Perhaps

Piada da noite

" Aquilo não é um homem. É um vírus que se apanha nas casas de banho e locais públicos"

By: Herman José in RTP Memória sessions

23h:30m

Faço as contas. São seis da manhã. São 36 anos de vida e histórias, numa cabeça que actua como se tivesse 14. Ninguém me dá a idade que tenho e nunca percebo se isso é bom ou mau. Interessa? Não. Depende. Dos dias e dos humores. Da altura do mês ou da situação. No final, não me diz nada. Apenas que é mais um dia a respirar. Mais um ano para aproveitar. Momentos bons. Maus. Estranhos. Extraordinários. Abstractos. E sim, mais um dia a recusar escrever com o acordo ortográfico com o qual não me identifico. Não me interessa minimamente. Interessa-me sim o que me rodeia. Quem me moldou no que sou. Em quem me transformei. Não acho que seja má pessoa mas também não sou perfeita. Nem quero ser. Quem gosta, gosta, quem não gosta... gostasse. 
São seis e quinze da manhã e lá fora o céu não colabora com o dia de Primavera... São seis e meia e o meu dia parou ali. Já não é o dia dos meus anos e na minha memória ainda são seis e meia. Mesmo que tenha passado uma hora sentada numa cadeira a fitar o vazio sem mexer um fio de cabelo. Apática. Sem reacção. Será que estava a respirar? Não dei conta. Sei que estou aqui. Uma da manhã do dia 5... E continuo na mesma. Apática. Abstracta. Os pés que teimam em não assentar no chão. O pesadelo que insiste em não acabar e me prende num sono profundo e angustiante. Espero sem esperar que alguém me puxe daqui para fora. A verdade é que voltei ao mesmo abismo do costume e a tábua que me suportava já é velha e quebradiça. Não sei se tenho mais forças para sustentar o meu peso nela. E muito menos compreendo porque acabo sempre aqui. Mas cá estou eu... sem saber se aqui estou porque mereço. Porque me empurraram. Porque é algo que tenho de superar. Ou por outra qualquer explicação... se é que há uma. 
A verdade é que acho sempre que não posso agradar a gregos e troianos mas todos eles acabam por me matar aos bocadinhos... e eu deixo... mas eu também tenho sentimentos. Também sinto aquela faca invisível que espeta devagarinho no centro de mim. Será que isso importa? E porque é que eu permito que isso aconteça constantemente? 
É só mais um dia. Happy Birthday. Welcome to the same story. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

quarta-feira, 1 de março de 2017

Chapter 2

Os anos continuam a passar por mim e cada vez mais, a certeza que não pertenço a esta cidade. Não é grande o suficiente para o tamanho dos meus sonhos e é gigante para que eu possa sequer, pensar em ser feliz. Eu... eternamente eu, tão complexamente simples. Banal e normal. O meu cabelo desgrenhado e longe de ser perfeito, a carregar na cara e corpo as imperfeições da idade... Não chamo a atenção pelas minhas formas mas sim pelas formas que me comporto... É difícil ver uma lágrima na minha cara e se alguém vir, é porque me ri demais... Mas aqui na cidade, tem sido mais normal verem a tristeza. De quem tem de por uma máscara todos os dias para se proteger da realidade... e de que tenho eu medo? De nada. De tudo. De não saber crescer. De envelhecer mal e amarga. Das alturas. Da água. De abelhas e insectos. Da morte. De não cumprir os meus sonhos. De não ser feliz... 
Mas houve um dia que não tinha medo de nada disso... fora daqui... fora da cidade que me fez ter medo do que não é suposto ter.
Só queria regressar lá, um pedaço de terra onde eu pudesse acordar todas as manhãs e dar graças por estar viva. Ver o nascer e o pôr do sol todos os dias. Os pássaros a cantar numa árvore perto da minha janela.. Por a chaleira ao lume e não ter de me preocupar com trânsito ou estar atrasada. A vida tem de ser mais do que isso. Do que trabalhar e dormir. Comer e voltar ao trabalho. 
E eu, tão simples... a eterna criança que nunca vou fazer ou encontrar um sentido para aqui estar... tão só. Tão vazia. Sem ti.

When?

As horas passaram e eu não dei conta. Quando dei por mim ainda estava naquele lugar. Sem saber como, quando, onde ao certo... porquê... ida? Vinda? E a vida não me parece diferente. Sempre em constante reencontro e despedida. Será que aguento? Será que isto terá um fim? Uma vinda sem partida? Uma partida minha sem regresso?
E eu continuo ali. Naquele mesmo banco onde 5 minutos antes não estava só. O lugar ainda quente de quem só emana calor humano. E eu? Porque fiquei para trás?
Espero? Ou regresso? Parto? Quando?
É tempo de ganhar forças nas pernas e ir-me.. Saio finalmente numa postura que adopto os restantes dias do ano... de pessoa inatingível, de alguém a quem o mundo inteiro não interessa e de quem parece nem ter ouvidos para outros. Não sou eu. É a mascara que uso sempre que estou insegura ou triste. Em passos fortes e seguros, caminho como se tivesse todas as certezas do universo em mim mas na realidade, na minha teia cerebral complexa apenas paira uma questão, quando? Hoje? Amanhã? Daqui a uma semana ou mês? E desculpa se avanço mais depressa do que aquilo que é de esperar mas tenho pressa em chegar. De recomeçar a vida que parou ali naquele banco triste e agora vazio. Outros certamente se sentarão ali... será que eles sabem, no tempo em que esperam, o que é amar? Será que são felizes? Será que também eles aguentam as constantes idas e regressos ou desistirão? Continuo... Sempre sem parar. Porque às vezes tenho medo que se o fizer, tudo caia à minha volta.. Que o desespero tome conta de mim. 
Quando?
Não te sei responder. Assim como não consigo fazê-lo a mim mesma. Parece tudo sempre tão incerto que fica difícil acreditar. Eu, eternamente confusa e complexa mais a minha vida desorganizada a tentar encontrar um caminho que faça sentido... Já o encontrei, só falta saber quando partir...