sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Pupu alheio

Realmente a ingenuidade das crianças bate recordes. Ontem a trabalhar na esturreira que se fazia sentir aqui em Bona, um dos meus alunos agarrou-se a uma das minhas nádegas perante o olhar atento de uma criança inglesa de três anos. Convém dizer que os meus alunos têm idades entre o um ano e os dois. Este discurso foi o seguimento da coisa:

Eu: Who is grabbing my " pupu"?
Ingénuo de dois anos: Ich! Me! ( a rir-se)
Virei-me para ele e dei-lhe uma mão enquanto a outra continuava agarrada à dita cuja. Qual não é o meu espanto quando a inglesa lhe dá uma chapada na mão e com um olhar muito sério, uma pronúncia inglesa muito marcada igual a gente grande e de dedo apontado em sinal de negação, lhe diz: " No grabbing pupus! Your naughty, naughty baby!!!"

A criança começou a chorar e agarrou-se a mim mas desta vez na parte da frente do meu corpo com a cabeça encostada exactamente no meio das minhas pernas. A miúda não tem mais nada e dá-lhe outra chapada mas desta vez na cara enquanto lhe diz: " no grabbing pipis neither!" Quando a recriminei pelo acto diz-me com a maior das indignações: " but Ms. Joana, your babies are very naughty, they need to be teached how to behave!" e foi embora... Atenta a nádegas alheias. Eu sei que não o devia fazer mas parti-me a rir!

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Pensamento da noite ao fim de dois anos aqui...

Turcos que montam mesas e cadeiras na rua durante a madrugada para falar alto e beber, vizinhos que chegam a casa bêbados e decidem bater à porta aos berros, chuvas intensas que inundam as caves e estragam bicicletas, bebés recém-nascidos a chorar a toda a hora ou crianças mal educadas a fazerem birra sem que ninguém lhes assente a mão... Já mudavas de casa e rua não????

Fim da batalha

Saio. Tal como prometi, derrotada de forças no corpo. Braços caídos e lágrimas que jorram de olhos outrora bonitos e alegres e agora meros órgãos sem vida. Eles serão eternamente o espelho da alma e a minha, está mais escurecida do que nunca. Mas foi isso que te prometi. Palavras ou a derrota. E perante o silêncio, cumpro promessas feitas ao vento. Aos teus ouvidos que já não são feitos para me ouvir, digo um adeus que não sei a duração. Amanhã? Um ano? Sempre?
Agora sou eu que estou incapaz de ouvir. Nada faz sentido e as palavras deixaram de fazer ligação entre elas. Não existem diálogos. Monólogos. Nada. Apenas palavras que sozinhas nada me dizem. E os braços vão caídos. O coração partido em mil e um bocados e o sentimento em luta preso em mim. Esquece. Esquece mil vezes e volta a esquecer. Nada mais me resta fazer e mesmo no dia em que esquecer, vou esquecer de me lembrar que esqueci. Até lá, sigo em marcha lenta de derrotada que não aceita a vitória do outro. Uso a capa da vergonha por não ter conseguido ser mais e melhor e sigo caminho. E por isso, esquece também, que alguma vez falei.

sábado, 26 de julho de 2014

Hipster e sua irmã

Programa de sábado: não pensar. Não fazer absolutamente nada que me lembrasse algo mais do que o trabalho que tenho a fazer. Plano fácil. Desenho. Corte. Cola. Maquinal e criativo. Ligo a música para me ajudar. Errado. Os olhos fecham na melodia que ecoa nestas quatro paredes. O cérebro é atirado vezes sem conta de um canto do crânio para o outro. Sinapses. Informação. Memória. Pensamento. Tarde demais. Plano abortado. Já não estou em casa. Nem sequer na Alemanha. Em questão de milésimos de segundos tenho uma cerveja na mão e estou a 1000km daqui. Lá fora chove e neste lugar preferido, estou quente em corpo e alegria. A banda sonora perfeita para o momento. Sem palavras para o estragar. A companhia é a melhor e estou a rir para libertar um pouco a minha felicidade que transborda. Merda. Eu não precisava pensar agora. Abro os olhos. Mas a melodia continua a tocar mesmo que a tente parar. Saudade. É sempre aquela palavra que não existe em mais lado nenhum do mundo e que me acompanha como uma sombra. E mesmo nos momentos em que estou lá, ela não me abandona porque sei que tudo tem um princípio meio e fim. E a música continua a tocar. Para me lembrar que de vez em quando, isto é o que os outros chamam de felicidade. E eu aqui, incapaz de a sentir, admiro-me ao perceber que de vez em quando, também sou capaz. A música acaba. O pensamento perdura. Volto a casa e estou só. Presa na memória do que fomos. Somos? Não sei mais. E era exactamente isto que não queria hoje. Pensar.

Para ti.

Hoje, voltei a ser pequena. A mesma miúda que correu para a cozinha e fechou a porta do quintal para fugir do irmão que a perseguia de patim no pé e o fez abrir o pulso no vidro. A mesma miúda que aprendeu a fazer fisgas como deve de ser com ele. A mesma pequena que o chamou à escola para bater num colega responsável pela reguada que levei da professora. A mesma, que construía casas miniatura com restos de cimento para guardar os nossos carros. Aquela que tinha lutas de cão e gato entre castelos feitos de almofadas no sofá. A mesma que se agarrava a ele aos berros quando me levava de mota para os pinhais e mais tarde, a mesma que viu o joelho dele aberto quando caiu dela. A menina pequena que pedia para brincar com ele mas a idade tornou-nos distantes. Gostos diferentes. Eu por bonecas, ele por bonecas a sério. Eu por carrinhos de brincar, ele por motas de corrida. 5 anos são anos que nos separam mas que também nos unem. Sempre distantes mas sempre à distância de uma porta de quarto e mais tarde, por uns metros de casa. Hoje, somos mais unidos do que alguma vez nos imaginamos mas estamos mais distantes... Uns meros 2000 km. mas hoje, sou a mesma menina pequena que teve a sorte de ter tido não um irmão mas O Irmão, no verdadeiro sentido da palavra. Foi com ele que fui à discoteca a primeira vez. Foi com ele que saí as primeiras vezes. Era ele que me dava cervejas à borla. Que ouvia as minhas histórias e as guardava para si. Foram óptimos momentos e maus também, como toda a história deve ser. Hoje, casado e pai, deu-me uma das melhores prendas da minha vida, um sobrinho que me relembra o passado, me alegra no presente e me faz sonhar com o futuro.
Hoje sou pequena e celebro com ele. Entre o peso das memórias passadas e também das futuras que com toda a certeza, viveremos, parabéns! És e serás sempre o meu melhor amigo. No meu coração, estou perto dele a bufar aquelas cinco velas a mais.

Palavras repetidas

Dizem que as palavras repetidas sem conta, levam ao vazio. Vai-se o sentido e fica apenas o som. Dizem-me isto e tantas outras mentiras que fico sem perceber porque o fazem. Se por inveja ou por desconhecerem a verdade. Essa, vem apenas por vezes e eu sei que é verdade que já acreditei nessas mesmas falsas verdades, falsos dizeres.
Agora que te ouvi, mais te quero ouvir. Quanto mais me dizes, mais me prendes. Quanto mais te repetes, mais as palavras ganham significado. E quanto mais te explicas, mais eu me complico neste mundo de sentimentos. A verdade, é que não me canso de te ouvir. Por uma ou outra vez que te repitas, sempre faz sentido e aceleras um lugar que muitos chamam de coração.
Eles dizem que não é verdade mas eles não sabem. Não conhecem ainda o sentido das coisas quando se ama alguém de verdade. Seja um parceiro ou um amigo, parente... eles dizem que é mentira mas em mim, é a mais pura verdade.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

A vida é feita de provérbios.

Sempre ouvi o meu avô dizer que:" de pequenino é que se torce o pepino" e logo eu que nunca gostei de pepinos e os anos me fizeram grande sem dar conta disso. Foi apenas a água fria em pedra dura que tanto bateu até que furou, a única culpada do meu trajecto. E porque quem tem boca vai a Roma, depois de ter falado até a Alemanha, outras portas se abrem, umas atrás das outras. E eu não sei o que fazer. Como de loucos e tolos, todos temos um pouco, apetece-me ir atrás da montanha prometida uma vez que ela não vem até mim e tentar agarrar um pássaro que insiste em voar na companhia de outros dois que voam perto.
O plano para hoje é simples, vou deitar cedo e amanhã, erguer mais cedo ainda, com saúde para crescer um pouco mais. Porque quem tem medo compra um cão e eu só tenho um gato, não há tempo a perder. Mãos à obra, arrumar os tarecos da tareca e sair. Mas o buraco no ozono trocou-me as voltas e em Abril já não há águas mil, restam todos os meses do ano para isso acontecer e lá fora chove e faz frio... O cão ladra e a caravana passa fazendo-me perder a boleia. Corro. Os cães continuam a ladrar mas não mordem. Continuo. Já vou depois da hora. Já não sou pequenina para torcer vegetais mas vou. Porque mais vale tarde do que nunca.
Dizem-me ao fundo, em vozes distantes, que quem não arrisca não petisca e eu estou disposta a engordar pelo mundo em vez de emagrecer numa morte sem luta. Não há nada a perder. Amanhã, seja lá quando isso for, vou acrescentar mais um ponto a este conto. Esperei mais do que devia e quase desesperei mas continuo a acreditar que vou alcançar. Porque o céu é o limite e depois da tempestade, sempre vem a bonança.

Turquia alemã

   Chove sem parar. Molha os tolos. Lavam-se os sem abrigo. As ruas, nunca limpas de forma igual. E eu, na minha alma impermeável vejo-os entre protestos, escondendo-se nas arcadas dos prédios enquanto a alegria vem à rua em forma de crianças que saltam nas poças, gritando mais e mais alto entre cada salpico. Os pais, gritam ao longe como se esta água fosse ácido ou balas perdidas entre a multidão. Eles cresceram e esqueceram-se como serem felizes. 
A chuva pára. Voltam os infelizes ainda a olhar o céu na dúvida duma granada a qualquer instante, com medo da simples água e da própria sombra. Escurecem as ruas com os seus mantos, num tom muito mais preto do que este céu pesado e as crianças dão lugar a outras que se arrastam em pernas fracas. Afinal de conta, a chuva não nos lava só da sujidade... Traz apenas a beleza do ser, detrás da comum aparência. Sem ela, eu podia jurar que nunca vi tanta gente deficiente em tão pouco tempo.. Eles caminham... Ora sem uma perna, sem as duas, cochos, ou numa outra qualquer condição que não sei explicar ou pensava já não existir. São todos muito iguais entre si. Denunciam um pecado que entre eles é regra. São todos filhos de casamentos entre parentes e não são uma minoria. São de facto, demasiados. São seres que antes mesmo de nascerem, já estão condenados a não saltar nas poças, a não recuperar as forças que nunca terão e possivelmente, destinados a um outro qualquer parente. E eu sou obrigada a assistir a esta parada de para-anti-olímpicos todos os dias de sol. Lembrando-me que aqui, sou eu a minoria e talvez a defeituosa. Venham por isso mais dias de chuva e tempestade que me façam lembrar que no meio desta estranha realidade, há outra mais normal.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Nota da gerência.

A vida é estupidamente simples. Somos nós a raça estranha que a complica. Temos em nós o chip de fazer de tudo em excesso e mais complicado do que é na realidade, numa tentativa ridícula de nos armarmos em maus ou heróis. Depende da perspectiva.
Nunca irei compreender esta lógica e prefiro sempre deixar a preguiça tomar conta de mim e fazer pouco do que fazer demais e ter a vida numa constante teia de stress e complicações... já dizia o meu sábio avô: "depressa e bem não há quem" e ao fim de anos a ouvir isto, cada vez percebo menos porque é que as pessoas mentem, enrolam, complicam, para fazer algo mau, bastante depressa, à espera de serem os melhores ou simplesmente caírem nas boas graças de alguém... Mesmo que na realidade isso represente dar-se mal com meio mundo. Valerá a pena? Continuarei a ser simples na minha maneira básica de ver a vida por um prisma menos complicado do que a maioria o pinta mas irrita-me solenemente viver rodeada de pessoas que não têm nada melhor para fazer do que fazer mal ao próxima numa busca impossível de se sentirem menos incapazes do que serão sempre.

Wondering

Assim me construo. De pensamentos ilógicos e verdades não absolutas que me provam a minha existência. De incertezas que me permitem o movimento certo, numa mistura ordenada de extensão e flexão dos membros. Podia ser tudo uma fachada. Mas ando incerta no caminho, certa nos meus passos. Sem medo, mesmo que me direccione para um abismo. Quem me olha ao longe, não sabe que me construo de areias movediças nas quais danço para me iludir da minha fraqueza. Mas vou. Incerta do sentido dos sentidos. Certa nos meus passos. Sem saber quem está preso na minha cabeça.
Já desisti de me questionar, quem sou por detrás de mim. Assim, munida de dicionário, calculadora, manual de instruções e opiniões dos outros num qualquer referendo. Para chegar a conclusão nenhuma. E vivo bem. O problema só surge quando o que sinto e não compreendo, ganha nomes que sei bem o significado. Raiva. Loucura. Tristeza. Solidão. Alegria. Amor. Ansiedade. Sete outros pecados que não matam mas confundem. E como se não bastasse toda esta incompreensão, ainda o sinto por pessoas que nunca vi dessa forma. Refugio-me novamente em mim em busca de calma. De conforto após a tempestade. Mas tudo me obriga a parar e pensar. E por onde começar se nem sei o que procuro? Volto às fórmulas matemáticas que me acompanharam naquilo que me pareceu ser uma vida. Perco-me. Recomeço. Troco os sinais. Recomeço. Equações demasiado impossíveis. Desisto. Nunca conseguirei responder às perguntas que me exigem quando nem eu mesma sei as respostas. Por muito que fale. Escreva. Serei sempre ilógica e incapaz de explicar a lógica deste caos. Mas para mim faz sentido. Que sentido faz?