domingo, 13 de julho de 2014

Nota da gerente

Obrigada a quem organiza a copa por ter jogos decisivos ao Domingo em plena véspera de trabalho. Obrigada pelo barulho que vou ter de aturar mesmo que a Alemanha perca, seguindo-se o barulho das crianças no trabalho.
E como os que torcia foram sempre perdendo, é caso para dizer: que vença o pior. Tenho dito.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Deep green

Serei sempre assim. A eterna distraída que bate vezes sem conta no mesmo poste e tropeça sempre no mesmo paralelo sem se dar conta. Houve apenas uma vez nos meus 33 anos que vi o que muitos não veem uma vida inteira só e apenas porque não lhes damos a devida atenção. Costumo brincar e no fim de algumas nódoas negras dizer: " às vezes precisava de quase me afogar para ver o que me rodeia com extrema exactidão"... Mas tem a sua meia parte de seriedade. Foi a única vez em que vi o que não voltei a ver. Não da mesma forma e ainda hoje lembro o dia em que uma onda mal calculada me tirou o chão dos pés e me arrastou para o fundo daquelas águas. Aos pés, inertes, lembro-me de os ver entre as bolhas de água, misturados entre o verde escuro de um sítio distante da luz que me torra a pele. Calma. Muita calma. De quem deixa de ter medo de morrer. Aquela linha invisível que nos mata ou devolve a vida. Tudo pára num instante de centésimos. A urgência do respirar desaparece para dar lugar a uma data de momentos que me passam em flash... Adrenalina. De quem continua a não ter medo de morrer mas decide fazê-lo a tentar viver. Fecho os olhos. Pés na areia e novamente a bomba de oxigénio que engasga os meus pulmões. 17 anos depois, não voltei a ver o que vi mas o que vi manteve-me viva até hoje. E no meio da vida que nunca quis caótica, vi a aproximação de um caos que me muda os pensamentos mas que de alguma forma, era há muito desejado. Só hoje o percebi. Correcção, só hoje tive a certeza e o aceitei. Serei sempre assim. Nunca pensarei no que não vejo mas por vezes, sou eu que me recuso publicamente a ver. Vejo-o por vezes, secretamente em momentos de vazio ou solidão. Talvez se os dias fossem outros, se as distâncias se cortassem com lâminas destas tesouras que prometem cortar ferro se nem cortam papel, se as certezas fossem certas no meio da incertidão que nos ocupa o espaço e o ser... Talvez a realidade pudesse ser real... Mas seria fácil demais e nunca lhe daríamos o verdadeiro valor. Seria ruim em excesso. Vazio de conteúdo e de conversas ao fim de umas semanas.
Hoje afoguei-me outra vez. E novamente a calma trouxe a fúria de viver. Reconhecer quem sempre conhecemos e nunca vimos com olhos de ver. Hoje, depois de todo o choro das crianças dos outros, de 40 fraldas mudadas e 8 horas de trabalho em dias que copiam o inverno, cheguei a casa e vi-te. E em ti, vi-me a mim.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Pausa

Pausa. Os minutos colaram e parecem horas que demoram a passar. As palavras abandonaram-me em busca de bocas mais sábias e com melhores histórias para contar e a vida repete-se em constantes momentos sempre iguais ao anterior, vazios de conteúdo. De emoção. Nada de novo acontece e até o sol abandonou as minhas janelas para dar lugar à chuva. Pausa. O prédio morre aos poucos, mais lentamente do que os que o habitam e eu vejo a decadência de tudo e de todos sem que nada possa fazer. Tenho medo. Medo que sem forças para lutar, seja contaminada nesta degradação. Pausa. Disseste-me outro dia em conversa, que este não era um sítio sinónimo de felicidade. Eu sei. Mas também sei que já me esqueci do que isso significa. Preciso de ti. Dos outros. Do que deixei para trás e talvez assim, voltar a fazer sentido. Pausa. Para recordar-me dos dias que passamos na praia de água gelada onde só tu tinhas coragem de nadar. Onde eu torrava ao sol ou gastava palavras com os outros. Ou simplesmente, via as ondas que enrolam nas pedras coloridas. Tenho-as ainda guardadas para que nunca me esqueça desses dias mas deixei-as tal como aos outros, numa caixa que ficou para trás. E agora? Estou tão longe daí que me sinto perdida algures no caminho. "Encontra-te!"- dirias-me. Se tu soubesses o quanto me é difícil agora... Foi para isso que aqui vim e agora que dois anos e meio passaram, sinto que apenas me desencontrei. Enchi páginas do meu livro de vida mas se o espremer, só escorre quantidade... E isso nunca foi suficiente para mim. Vi recentemente duas pessoas diferentes, que toda a vida acumularam coisas que lhes diziam algo ou relembravam momentos felizes, partirem desta vida sem elas. Acabaram num contentor de lixo, comidas pelo bicho e pelo pó porque não dizem mais nada a ninguém. E eu não quero isso para mim. Pausa. Preciso de algo que todo o dinheiro que posso receber aqui, nunca puderá comprar. Preciso de mim.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Words are only words

Nunca vou encontrar as palavras certas. Elas fugirão de mim sempre que eu tentar. Nunca vais saber o que prende a minha atenção, o que corre nas minhas veias, o que quase pára o meu coração ou o que acelera a minha respiração. Não vou ser capaz por muito que tente, que queira, que grite ou me revolte. E da mesma maneira, também nunca vou compreender. Por muito que repitas as palavras e as gastes de sentimento. Numa ou outra língua. Farão sentido mas nunca o real e para sempre empatadas, ficarão as batalhas de quem gosta ou odeia mais, de quem sente o quê por quem. E poderíamos ficar nisto dias. Meses. Anos. Parando apenas para abastecer o corpo que se quer forte.
Nunca as entenderemos como nós mesmos as sentimos mas dependeremos sempre delas. Da verdade que não se traduz em quantidade, do peso que não serve na balança linguística. Foram sempre elas que nos juntaram e serão elas também, que nos colarão um ao outro em momentos de amor ou ódio.
Discutimos menos agora. Porque aprendemos novas palavras? Porque nos julgamos conhecer melhor? Ou simplesmente paramos para ouvir, numa busca incessante de compreensão?
Não, não as conheceremos mas o que ouvimos chega para nos alimentar quando estamos sozinhos. No dia em que nos unirmos, falaremos menos e agiremos mais e melhor porque no final, um gesto valerá sempre mais que mil palavras. E talvez aí, nesse mesmo final, te consiga explicar tudo o que sinto e não se traduz em meras palavras.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Special one



http://www.youtube.com/watch?v=APQp6py8gok&feature=youtube_gdata_player

Bis später...

Dizem-me que Hoje salvei uma vida e nem por isso me sinto melhor. Pelo contrario...sinto-me horrivelmente chocada e angustiada. Agora sozinha pergunto-me se salvei mesmo ou apenas prolonguei a espera da morte. 
Hoje cheguei a casa e mais do que nunca quis ter filhos. Não um, nem dois... Três, quatro, um rancho deles... Quis dar vida a quem ainda não nasceu e não propriamente a quem já se esqueceu do que é viver. A quem está cansado demais para estar de olhos abertos à espera do final dos dias. A quem tudo o que melhor podiam dar era o descanso das suas casas. Mas eu tirei-lhe isso. Salvei uma mulher demasiado cansada pelos anos que carrega mas milagrosamente viva, de uma casa que morria primeiro do que ela. Bastou uma chamada para a emergência para lhe abrirem a porta...eles vieram e levaram-na daqui. Longe da sua casa, do lixo que se acumulava em todo o lado mas não a corroía, do pó a reclamar mais de uma década de existência, do bolor que criava netos numa casa vazia de família.  E é triste... Chegar aos noventas e não ter ninguém a quem ligar, ninguém para a ajudar, ver o que vi hoje dentro do seu canto e ficar marcada para o resto da vida, sem poder apagar de mim a imagem de uma cozinha preta do tempo, fechada a chave para não deixar passar bicho a outras divisões que serviam de cemitério a outros tantos mortos numa batalha que só ela, sem que eu entenda como, sobreviveu. 
Dizem-me as mesmas pessoas, que é para o bem dela, que vai ter a dignidade que merece mas na minha cabeça guarda ainda os protestos e choro dela quando a levavam para a ambulância. Memórias de outros tempos mais limpos mas penosos da mesma forma. Ela não vai voltar aqui, um dia destes vem uma equipa fazer a limpeza porque é uma questão de saúde pública e ela ficará os restantes dias que lhe restam, num sítio estranho a ela. Longe dos seus animais de estimação que agora voam noutra direcção e a culpa será sempre minha. 
Um dia destes quando a for visitar, vou pedir-lhe um perdão que ela não vai entender por algo que fiz por não ser capaz de ver alguém assim ao abandono. Vou-lhe pedir perdão por não a ter deixado morrer ali mas estar a matá-la na alma por estar longe daquilo que imundamente a fazia feliz.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Palavras mudas

Acreditarias se te dissesse que sei mais do que corre em ti do que sabes? Se te dissesse que tudo na nossa vida acontece primeiro aos ouvidos dos outros do que em nós mesmos? Que com isso ganhamos defeitos e virtudes que não são nossos? Odeiam-nos sem sabermos porquê, amam-nos pelo que não somos e contam histórias que não retratam a nossa vida ou a nós mesmos.
Acreditarias se te dissesse que tudo isso para mim é pedaço de um bolo estragado que me forçam a comer? Se te dissesse que preferia não comer. Não ouvir. Não saber? Mas os ventos são tão fortes e ruidosos que só tu não os ouves. Todos sabem. Todos ouvem. Todos comem. Com um prazer distorcido e retorcido em mil e uma migalhas bolorentas que contaminam a nossa vida de parasitas invisíveis que nos matam aos poucos, numa morte lenta que só sentimos quando já não há mais nada a dizer. 
E eu calo-me é verdade. Não consinto. Apenas não sou mais do que os outros. Mais do que tu mesmo. Nos pedaços de moral que me restam, não sou ninguém significante. Eu esforço-me por me lembrar de um momento que não tenha errado. Algo que me perdoe a modéstia e me deixe falar. Contar-te que o mundo está cheio de gente má que te idolatra a um ponto obsessivo... Mas quem sou eu? Eu, mal me compreendo a mim. Quem sou eu para julgar os outros? Quem sou eu para os calar desse vício do qual parecem alimentar-se numa constante matança de sede de vigança sem razão? Quem sou eu para dizer que erraste? Quando muitas vezes o erro... Não foi nosso... Eu já tinha dito noutras linhas, noutro texto, noutro discurso em pensamento, numa conversa que nunca aconteceu.. Sou e serei sempre aquela que tudo sabe e nada pode contar.

domingo, 11 de maio de 2014

Time is running out

Já não há tempo para escrever. As linhas deixadas ao abandono, esperam por mãos mais capazes, que as preencham. Com palavras bonitas, curtas ou compridas que embelezem a realidade fria e feia que vivemos.
Não há tempo para falar. As mesas vazias cobertas de pó com as cadeiras deformadas pelo peso do passado, continuam a vista como prova de que um dia houve tempo para nos sentarmos, sozinhos ou acompanhados, escrevendo ou falando com alguém.
Nestes dias em que o tempo não tem tempo, já
 ninguém escreve cartas. Não há tempo para escrever e também não saberiamos o que dizer porque paramos de falar.
Paramos de ouvir. Não por surdez mas por uma estranha forma de agnosia auditiva. Somos nós que nos esquecemos dos sons das palavras, do seu sentido e conscientemente, matamos o contacto.
Do viver em sociedade passamos a ser sós. Egoístas, mesquinhos, calados. Temos todo o tempo do mundo para viver e no entanto preferimos morrer.
Não há futuro num presente que se mata. O suicídio mental tomou conta de nós e esperamos apenas que alguém tenha a coragem que nós não temos e nos desliguem as máquinas.
E eu escrevo. Sentada numa cadeira que insiste em não deformar, sacudindo o pó que se acumula e falando sozinha para não esquecer as palavras ou o som delas. Sei que sou una e talvez um dia não resista mais... assim de repente, faltarem-me as forças e transformar-me em mais uma nesta multidão que se empurra e atropela... Mas até lá falo. Escrevo. Grito. Revolto-me. Na esperança que alguém ouça e acorde deste coma induzido que se instalou.

Out of time

Mais lenha. Acumulas. Guardas mais um tronco de sorriso rasgado. Sabes que te queimas a cada acha que deitas na fogueira mas ages como se nada fosse. Calas a dor da mesma forma que o fazes com as palavras. Em seco. Guardas para ti a ira que acumula, perdes o tempo e a oportunidade certa de a cuspir a quem a merece e lanças mais um tronco. Até quando? Por quanto tempo vais guardar-te da verdade? E eu aqui. Sentada à espera do dia D. Vejo como através dos teus gestos, acendes o rastilho da bomba que não conseguiste acender com palavras. Falta pouco. Anos de acumulação têm peso de bomba atómica. Será que os outros estão preparados?
A bomba vai explodir e tu és o primeiro a querer fugir. Tarde demais. A bomba é tua e de mais ninguém, estás preso a ela. Vai explodir e serás tu a receber o maior impacto... Os outros, receberão apenas os restos de pó e pólvora. Palavras distantes e sem importância para eles.
E eu aqui sentada, serei eternamente aquela que tudo sabe mas nada te pode contar. E desculpa se sei disto tudo e continuo calada. Na boca tenho um trapo que me emudece e uma perna presa à cadeira. Desta vez não te posso ajudar porque essa cama, foste tu que a fizeste... Só te resta dormires nela.

Insolúveis

Somos a àgua e óleo que nunca se unem. Quando fervemos, há a ilusão que nos unimos momentaneamente mas assim que se apaga o lume, voltamos a ir cada um para o seu canto.
Somos feitos de diferentes  matérias. Fervemos a diferentes temperaturas e nunca seremos um realmente.
E podemos fingir que sim, que andamos de mãos dadas, que seremos felizes e gritarmos que seremos eternos mas isso é apenas uma negação de uma realidade triste mas verdadeira.
Eu e tu, somos sempre os que andam e dançam lado a lado mas nunca um com o outro.