Não vamos falar hoje. Vamos apenas sentir. Fazer de conta que lá fora é um conceito distante que não penetra de forma alguma entre estas quatro paredes. Não vamos fazer nenhum som. Apenas o da nossa respiração enquanto nos olhamos na esperança de conhecer o que não sabemos conhecer. Não vamos estragar este momento com palavras ditas para preencher um vazio que só nós criamos. Não iremos falar da chuva que cai lá fora e molha os tolos. Não vamos sentir o frio que não existe dentro de nós mas gela tudo lá fora. E vamos ficar assim. Olha-me como nunca olhaste. Como sempre quiseste e nunca tiveste coragem. Como se fosse algo proibido. Prometo olhar-te da mesma maneira que sempre olhei mas nunca te contei. Toca-me se for isso que precisas para sentir a verdade. Abraça-me se precisares de sentir a força do conteúdo imenso do meu silêncio ou esbofeteia-me se assim for necessário.. Mas não fales. Sentaremos-nos numa mesa de duas cadeiras unas e ficaremos frente a frente num confronto decisivo. Olha-me nos olhos e prova-me que estou enganada. Ou então que estou certa e o resto do mundo não nos aceita desta forma. Deixaremos todos do lado de fora da porta e chegaremos a uma conclusão. Livre de opiniões maldosas, livre de interesses, livre de palavras que por muito que sejam ditas, confundem e enganam. Prova-me que por detrás deste olhar não há nada de novo a revelar e prometo sair porta fora em pose de derrotada. Vencida numa luta que apenas eu criei. Ou então, prova-me o mundo e prometo vivê-lo em pleno.
segunda-feira, 21 de julho de 2014
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Dúvidas
Estamos ébrios e não demos por isso. O álcool que sobe em nós molda-nos o pensamento e deixamos de pensar em tudo o que não queremos para sentir apenas o conforto dos sentimentos. Será assim que nos encontramos? Numa dessas noites em que um punhado de moedas no bolso nos traz o consolo dos restantes dias vazios? Em que o que dita o contacto é uma cerveja a mais ou a menos? E a ressaca? Ela sempre vem no dia a seguir. Como uma bomba atómica prestes a explodir em vergonha do que fomos na noite anterior. Nunca me arrependo. Nas noites destiladas sinto sempre aquilo que penso mas e tu? E os outros? É assim tão diferente a realidade? É assim, ou seria assim, tão má que só eu, afinal de contas, estou ébria e não sei? Sou eu que estou já a ver as pessoas a dobrar, os sentimentos exagerados e não notei? Dúvida.
domingo, 13 de julho de 2014
?
Tu nunca me perguntas. Nunca me dás o mote para te dar as respostas difíceis que explicariam o simples. E continuas assim. Na dúvida, perdido em mil e um pontos de interrogação como quem tem toda a coragem do mundo e na beira do abismo, perde as forças nas pernas. Desistes das perguntas a mim e enches-te delas em ti mesmo... E eu aqui, com todas as respostas na ponta da língua.
Perguntas apenas o básico. Aquilo que explica o que faço mas não quem sou. Aquilo que estou a ver mas nunca o que sinto. Surpreende-me! Por uma vez na vida, dá a volta a ti mesmo e atreve-te a perguntar. Pergunta-me quem sou, o que penso do mundo actual ou da política sem graça nem dinheiro que nos empobrece a alma e o bolso, pergunta-me o que me faz chorar ou rir, o que me alegra ou chateia. Ao fim destes anos, o que pensas tu saber de mim se nunca me deste uma hipótese de me dar a conhecer?
Dirias certamente que as minhas acções falam muito sobre quem sou. Mentira! As minhas acções são sempre baseadas naquilo que alguém interpreta delas ou então, fruto de uma censura num ou outro assunto, uma ou outra palavra.
Sabes o que realmente me chateia? É o poder que não tenho sobre a ausência. Não a poder evitar... Especialmente a forçada. A obrigação de ter de me manter longe quando por vezes queria estar mais perto dos outros. Dos meus. De ti. Ter de evitar conversas e sentimentos que vão exigir um contacto que o mundo inteiro nos proíbe. Uma vez na vida, gostaria de ter a coragem suficiente para lutar contra ele.
E ficamos assim. Longe um do outro. Separados em km e em anos luz de pensamento. No segredo da noite, como um acto clandestino que oprimes durante o dia, fazes a ti mesmo as perguntas que só eu saberia responder, sem chegar a conclusão certa. E eu já não sei mais o que te dizer.
Nota da gerente
Obrigada a quem organiza a copa por ter jogos decisivos ao Domingo em plena véspera de trabalho. Obrigada pelo barulho que vou ter de aturar mesmo que a Alemanha perca, seguindo-se o barulho das crianças no trabalho.
E como os que torcia foram sempre perdendo, é caso para dizer: que vença o pior. Tenho dito.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Deep green
Serei sempre assim. A eterna distraída que bate vezes sem conta no mesmo poste e tropeça sempre no mesmo paralelo sem se dar conta. Houve apenas uma vez nos meus 33 anos que vi o que muitos não veem uma vida inteira só e apenas porque não lhes damos a devida atenção. Costumo brincar e no fim de algumas nódoas negras dizer: " às vezes precisava de quase me afogar para ver o que me rodeia com extrema exactidão"... Mas tem a sua meia parte de seriedade. Foi a única vez em que vi o que não voltei a ver. Não da mesma forma e ainda hoje lembro o dia em que uma onda mal calculada me tirou o chão dos pés e me arrastou para o fundo daquelas águas. Aos pés, inertes, lembro-me de os ver entre as bolhas de água, misturados entre o verde escuro de um sítio distante da luz que me torra a pele. Calma. Muita calma. De quem deixa de ter medo de morrer. Aquela linha invisível que nos mata ou devolve a vida. Tudo pára num instante de centésimos. A urgência do respirar desaparece para dar lugar a uma data de momentos que me passam em flash... Adrenalina. De quem continua a não ter medo de morrer mas decide fazê-lo a tentar viver. Fecho os olhos. Pés na areia e novamente a bomba de oxigénio que engasga os meus pulmões. 17 anos depois, não voltei a ver o que vi mas o que vi manteve-me viva até hoje. E no meio da vida que nunca quis caótica, vi a aproximação de um caos que me muda os pensamentos mas que de alguma forma, era há muito desejado. Só hoje o percebi. Correcção, só hoje tive a certeza e o aceitei. Serei sempre assim. Nunca pensarei no que não vejo mas por vezes, sou eu que me recuso publicamente a ver. Vejo-o por vezes, secretamente em momentos de vazio ou solidão. Talvez se os dias fossem outros, se as distâncias se cortassem com lâminas destas tesouras que prometem cortar ferro se nem cortam papel, se as certezas fossem certas no meio da incertidão que nos ocupa o espaço e o ser... Talvez a realidade pudesse ser real... Mas seria fácil demais e nunca lhe daríamos o verdadeiro valor. Seria ruim em excesso. Vazio de conteúdo e de conversas ao fim de umas semanas.
Hoje afoguei-me outra vez. E novamente a calma trouxe a fúria de viver. Reconhecer quem sempre conhecemos e nunca vimos com olhos de ver. Hoje, depois de todo o choro das crianças dos outros, de 40 fraldas mudadas e 8 horas de trabalho em dias que copiam o inverno, cheguei a casa e vi-te. E em ti, vi-me a mim.
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Pausa
Pausa. Os minutos colaram e parecem horas que demoram a passar. As palavras abandonaram-me em busca de bocas mais sábias e com melhores histórias para contar e a vida repete-se em constantes momentos sempre iguais ao anterior, vazios de conteúdo. De emoção. Nada de novo acontece e até o sol abandonou as minhas janelas para dar lugar à chuva. Pausa. O prédio morre aos poucos, mais lentamente do que os que o habitam e eu vejo a decadência de tudo e de todos sem que nada possa fazer. Tenho medo. Medo que sem forças para lutar, seja contaminada nesta degradação. Pausa. Disseste-me outro dia em conversa, que este não era um sítio sinónimo de felicidade. Eu sei. Mas também sei que já me esqueci do que isso significa. Preciso de ti. Dos outros. Do que deixei para trás e talvez assim, voltar a fazer sentido. Pausa. Para recordar-me dos dias que passamos na praia de água gelada onde só tu tinhas coragem de nadar. Onde eu torrava ao sol ou gastava palavras com os outros. Ou simplesmente, via as ondas que enrolam nas pedras coloridas. Tenho-as ainda guardadas para que nunca me esqueça desses dias mas deixei-as tal como aos outros, numa caixa que ficou para trás. E agora? Estou tão longe daí que me sinto perdida algures no caminho. "Encontra-te!"- dirias-me. Se tu soubesses o quanto me é difícil agora... Foi para isso que aqui vim e agora que dois anos e meio passaram, sinto que apenas me desencontrei. Enchi páginas do meu livro de vida mas se o espremer, só escorre quantidade... E isso nunca foi suficiente para mim. Vi recentemente duas pessoas diferentes, que toda a vida acumularam coisas que lhes diziam algo ou relembravam momentos felizes, partirem desta vida sem elas. Acabaram num contentor de lixo, comidas pelo bicho e pelo pó porque não dizem mais nada a ninguém. E eu não quero isso para mim. Pausa. Preciso de algo que todo o dinheiro que posso receber aqui, nunca puderá comprar. Preciso de mim.
terça-feira, 17 de junho de 2014
Words are only words
Nunca vou encontrar as palavras certas. Elas fugirão de mim sempre que eu tentar. Nunca vais saber o que prende a minha atenção, o que corre nas minhas veias, o que quase pára o meu coração ou o que acelera a minha respiração. Não vou ser capaz por muito que tente, que queira, que grite ou me revolte. E da mesma maneira, também nunca vou compreender. Por muito que repitas as palavras e as gastes de sentimento. Numa ou outra língua. Farão sentido mas nunca o real e para sempre empatadas, ficarão as batalhas de quem gosta ou odeia mais, de quem sente o quê por quem. E poderíamos ficar nisto dias. Meses. Anos. Parando apenas para abastecer o corpo que se quer forte.
Nunca as entenderemos como nós mesmos as sentimos mas dependeremos sempre delas. Da verdade que não se traduz em quantidade, do peso que não serve na balança linguística. Foram sempre elas que nos juntaram e serão elas também, que nos colarão um ao outro em momentos de amor ou ódio.
Discutimos menos agora. Porque aprendemos novas palavras? Porque nos julgamos conhecer melhor? Ou simplesmente paramos para ouvir, numa busca incessante de compreensão?
Não, não as conheceremos mas o que ouvimos chega para nos alimentar quando estamos sozinhos. No dia em que nos unirmos, falaremos menos e agiremos mais e melhor porque no final, um gesto valerá sempre mais que mil palavras. E talvez aí, nesse mesmo final, te consiga explicar tudo o que sinto e não se traduz em meras palavras.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Bis später...
Dizem-me que Hoje salvei uma vida e nem por isso me sinto melhor. Pelo contrario...sinto-me horrivelmente chocada e angustiada. Agora sozinha pergunto-me se salvei mesmo ou apenas prolonguei a espera da morte.
Hoje cheguei a casa e mais do que nunca quis ter filhos. Não um, nem dois... Três, quatro, um rancho deles... Quis dar vida a quem ainda não nasceu e não propriamente a quem já se esqueceu do que é viver. A quem está cansado demais para estar de olhos abertos à espera do final dos dias. A quem tudo o que melhor podiam dar era o descanso das suas casas. Mas eu tirei-lhe isso. Salvei uma mulher demasiado cansada pelos anos que carrega mas milagrosamente viva, de uma casa que morria primeiro do que ela. Bastou uma chamada para a emergência para lhe abrirem a porta...eles vieram e levaram-na daqui. Longe da sua casa, do lixo que se acumulava em todo o lado mas não a corroía, do pó a reclamar mais de uma década de existência, do bolor que criava netos numa casa vazia de família. E é triste... Chegar aos noventas e não ter ninguém a quem ligar, ninguém para a ajudar, ver o que vi hoje dentro do seu canto e ficar marcada para o resto da vida, sem poder apagar de mim a imagem de uma cozinha preta do tempo, fechada a chave para não deixar passar bicho a outras divisões que serviam de cemitério a outros tantos mortos numa batalha que só ela, sem que eu entenda como, sobreviveu.
Dizem-me as mesmas pessoas, que é para o bem dela, que vai ter a dignidade que merece mas na minha cabeça guarda ainda os protestos e choro dela quando a levavam para a ambulância. Memórias de outros tempos mais limpos mas penosos da mesma forma. Ela não vai voltar aqui, um dia destes vem uma equipa fazer a limpeza porque é uma questão de saúde pública e ela ficará os restantes dias que lhe restam, num sítio estranho a ela. Longe dos seus animais de estimação que agora voam noutra direcção e a culpa será sempre minha.
Um dia destes quando a for visitar, vou pedir-lhe um perdão que ela não vai entender por algo que fiz por não ser capaz de ver alguém assim ao abandono. Vou-lhe pedir perdão por não a ter deixado morrer ali mas estar a matá-la na alma por estar longe daquilo que imundamente a fazia feliz.
Subscrever:
Comentários (Atom)
