segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Carta aberta

 

Inspiro. Expiro. Faço-o vezes sem conta antes de conseguir pegar na caneta. Porquê? Porque fazê-lo obriga-me a escrever e escrever, torna tudo tão real... E volto a respirar. Penso na força que me davas e no quanto acreditavas em mim mesmo quando mais ninguém o fazia. Eu devo-te isto, eu sei.. mas a coragem falta-me assim como o som das tuas palavras. 
Inspiro e antes de expirar, pego finalmente na caneta e aponto-a ao papel. Não sei o que queres que te diga nem por onde começar... a minha vida já começou contigo ao lado e agora perco-me nas milhares de aventuras, brincadeiras, palavras, brigas e acima de tudo amor, que não vamos voltar a ter. E desculpa se me sinto perdida ou sem saber por onde ir mas nunca vivi tão sozinha. E expiro.
Quero pedir-te desculpa. Por todas as vezes em que não acreditei em ti quando me dizias que certas pessoas não eram o que pareciam. Hoje, dou o braço a torcer para te dizer que tinhas razão... elas são bem piores do que contavas. E perdoa-me também, por não conseguir perdoar tal gente como tu farias mas não sou assim tão carinhosa. Sabes bem que no meu sangue corre um fogo que me ferve à flor da pele...
Páro por momentos e fito a tua janela. Eras o meu vizinho preferido (entre tantas outras coisas). A tua janela sempre tão cheia de vida, de luz, de ti... Rio-me quando me lembro do laser verde apontado à minha testa enquanto saboreava o meu café na marquise e tu lá do alto do teu prédio, a rir como quando éramos crianças. Conheço-te tão bem que consigo ouvir o teu riso agora. Olho novamente para lá. Tão só, vazia, escura... as vassouras desapareceram, a roupa a secar estilo bacalhau, também... a luz da cozinha em horas estranhas de quem cozinha maravilhas que agradavam a todos os palatos, apagou-se. Tu foste e levaste a vida da tua casa contigo.
Por vezes, aparece uma ou outra sombra que me atira ao passado ainda recente mas logo de seguida me esfaqueia o coração quando me lembro que não és tu... Não podes mais ser tu. Vais sempre sê-lo em mim mas e se um dia não fores?
Não o digo alto mas confesso-te aqui... tenho medo de me esquecer.. do tom da tua voz, da tua maneira de ser, do som das tuas gargalhadas, do teu cheiro, de ti e acima de tudo, de nós. Por isso mesmo prometo-te que enquanto eu me lembrar, não deixarei de contar as nossas histórias, boas e más, ao teu filho e aos meus, até ao ponto que eles te conheçam como nunca conheceram. E assim se eu me esquecer, serão eles a lembrar-me que eu tive o melhor irmão do mundo e que ele vive em mim.

Sem comentários: