segunda-feira, 13 de abril de 2026

True Colors

Hoje. Mais do que nunca, lembro o meu irmão. Partido no tempo que ele sempre esticou até ao infinito, num mundo que ele escolheu, perdido cedo demais. Penso hoje, como pensei ontem e pensarei amanhã e todo o sempre mas há momentos em que ele é mais "visível" em mim do que outros. Hoje foi um dia desses. E mais uma vez o luto. O que por uma razão ou outra acabo por adiar fazer. Como que se ao fazê-lo, me fizesse esquecer dele. Eu sei que ajudaria mas o medo continua maior. Não quero esquecer, não quero esquecer-me dele em momentos como o hoje nem muito menos o quero "afastar" de mim por aceitar a sua morte depois de fazer o luto. Eu sei que isto não tem lógica mas será assim tão ilógico?

Começou com uma simples conversa. Dois amigos que o tempo separa e une. Dois adolescentes num corpo que envelheceu com o passar dos anos como seria de esperar. Temos agora rugas e cabelos brancos mas de alguma forma somos bem mais bonitos do que alguma vez fomos. Falamos do passado, do presente, dos entretantos da vida. Vidas que foram bonitas, tristes e alegres, feias por vezes mas que nos trouxeram ao agora e que a mim me fizeram lembrar o meu irmão.

Os irmãos mais velhos, aqueles que servem de guia para a vida dos mais novos, os que nos ensinam o que fazer, como, quando e acima de tudo o que não fazer. Os que nos dão todo esse ensinamento que os mais novos se esforçam por não dar valor mas que faz agora um sentido único, trazendo toda uma beleza desconhecida. O meu, perdi a conta a namoradas, amizades coloridas, e amigos. Amigos genuínos. Aquele que se contava pelos dedos as namoradas que não viraram amigas a seguir porque embora mulherengo, sempre foi fiel e quando amava, fazia-o intensamente (magoando-se muitas vezes e levantando logo a seguir com a mesma intensidade), quando o amor se acabava, o seu coração continuava a emanar amor mas como amigo e por isso, nunca se afastou. Sempre ensinando-me que isso é possível embora nem sempre seja fácil para os outros, entender. 

Confesso, tentei fazer o mesmo. Contam-se pelos dedos os ex-namorados com quem não fale ou cumprimente se passar na rua, porque o amor carnal acabou mas aquilo que me levou inicialmente a gostar dessas pessoas, não morreu, faz parte de cada um de nós e do nosso ser. Se estou com eles muitas vezes? Não. Porque as vidas mudaram, as prioridades também, o trabalho exigente, a vida familiar, os desencontros... e muitas vezes, por não querer de alguma forma ser a causa de insegurança de um relacionamento.

Eu que sempre falei pelos cotovelos mas quando era para falar de mim, sempre com muitos floreados talvez com a vergonha do peso das palavras. Assim o era para não me sentir despida. Uma coisa sempre foi despir-me de roupas e ser transparente, outra bem diferente, é sentir-me nua de pele. E muitas vezes acabava por não conseguir dizer o que realmente queria.

Mas hoje percebi que na vida, perde-se muito quando se cala o que se devia falar, sem medo, sem receio do impacto em terceiros. Lembrei-me que a vida não é feita de terceiros mas de primeiros e que as relações, sejam amorosas ou de amizade, se baseiam na mesma coisa: confiança. Um porto seguro que nos vai abraçar ou esbofetear, dar a mão ou um pontapé quando merecemos... E que dizer o que nos vai na alma, só vai fazer sentido para essa pessoa e mais ninguém tem de entender, apenas confiar em quem eles decidem ter como primeiros.

E assim hoje, percebi que interiorizei o que me foi ensinado e pela primeira vez lhe dei uso. Perceber que o amor de agora é muito mais bonito e forte na amizade do que alguma vez foi no namoro. Percebi que amar alguém, pode ser muito mais do que amor carnal e ter várias formas e cores. Por isso mesmo, lembrei-me do meu irmão e sem vergonha nenhuma, falei o que calei até então. Eu amo este amigo. E sim, isso é possível mesmo sendo "casada" e mãe de filhos, porque o meu marido é o primeiríssimo e porque confia. E como confia, eu não escondo. Parece lógico mas infelizmente raro. Porque a sociedade nos ensina que homem e mulher não podem ser só amigos, e porque muitas vezes os terceiros, se esquecem que antes do namoro que têm, já existiam os amigos de cada um e o carinho que havia, não pode nem vai ser apagado ou menos carinhoso, só porque eles querem. Negar isso, só vai criar uma bomba de autodestruição para a relação ou para elas mesmas.

E por isso, obrigada mano. E um muito obrigada a esse amigo por me amparar na dor e na felicidade. Porque às vezes, raras nos tempos que correm, os nossos amigos são os melhores psicólogos e a nossa tábua de sanidade e salvação.

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